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16/06/2019

EVIDÊNCIAS E PÓS-POLÍTICA NA REDE DE ENSINO DE SÃO PAULO

Texto de Fernando Cássio

"Vou negando as aparências, disfarçando as evidências".

“Ao longo dos últimos anos, o Governo do Estado de São Paulo tem investido o dinheiro do contribuinte em diversos projetos de "formação de lideranças". Até aí, a decisão política de como formar seus quadros administrativos cabe a cada governo. Contudo, nada disso tem servido para atingir um dos maiores objetivos da dinastia tucana que governa São Paulo desde a década de 1990: elevar os indicadores educacionais paulistas aos píncaros da glória do Ideb e dos países da OCDE com IDH semelhante ao do estado mais rico do Brasil.

Será que não faltou investimentos massivos em carreira docente, salários, formação (não pasteurizada) e infraestrutura escolar? Talvez o estado que concentra mais de 30% do PIB nacional (e também possui um dos maiores PIB per capita) pudesse se colocar como ponta de lança - locomotiva do Brasil - de políticas sociais que lidem de verdade com o problema da evasão e do abandono escolar no Ensino Médio. Sem desculpinha e sem aquele bode expiatório de que os alunos vão embora da escola porque ela é chata e antiquada. Não basta flexibilizar o currículo. Não basta falar ao coração dos estudantes para que esses se sintam empoderados e capazes de pensar em "projetos de vida". A BNCC e as "inovações" educacionais público-privadas estão muito aquém das expectativas da juventude. Vão nas escolas e perguntem, como tanta gente que estuda a juventude tem feito há décadas no Brasil. Bem, mas "evidência" só é bão quando confirma nossas próprias crenças, né não?

Por exemplo: a Secretaria da Educação concluiu, ainda na gestão de José Renato Nalini, um estudo sobre a política de bônus iniciada em 2008 (aquela que dá dinheiro aos professores cujas escolas obtenham indicadores quantitativos melhores do que a média do estado). Ainda não li o estudo, mas sei que o resultado principal mostra uma correlação entre bônus e resultado nas avaliações que é muito mais fraca do que se esperava - provavelmente irrelevante. Além de uma pequena menção do ex-secretário ao estudo em uma entrevista ressentida, não se falou mais no assunto. E a política de bônus vai de vento em popa no Estado de São Paulo, a terra do progresso em que aqueles que mais pregam a "evidence-based education" são os mesmos que negam as evidências do fracasso de suas políticas educacionais.
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"Eu não posso enganar meu coração"

Agora a Secretaria da Educação lança um programa de headhunting de dirigentes regionais (e, posteriormente, de diretores escolares) chamado Líderes Públicos. Eu tenho me divertido lendo processos administrativos da educação paulista, e descobri que há alguns poucos anos a SEDUC desenvolveu um projeto chamado "Academia de Líderes", parceria com a Fundação Dom Cabral: um mélange bizarro de Paulo Freire com gestão empresarial e avaliação 360. Sabe-se lá o que foi feito disso. E sabe-se lá quanto custou.

A grande novidade desta forma de selecionar lideranças, diz o secretário, é que "com o novo processo não haverá indicação política". Muito bem, então estaríamos expurgando a política da gestão pública para incorporar a racionalidade superior da gestão privada. É a Reforma Gerencial do governo FHC diluída numa água turva em que agentes públicos e privados são cada vez mais indistinguíveis. Dizer que a gestão pública deve ir além da política tem um peso diferente hoje do que tinha nos anos 1990. Naquela década, penso eu, as pessoas do setor público sabiam que a alegada neutralidade política do discurso gestionário da competência era balela, e aproveitavam daquilo o que fosse útil para desmontar o Estado. Tenho a impressão – e por ora é só uma impressão – que os “jovens talentos” das reformas educacionais empresariais, formados na doxa gerencial das décadas passadas, estão cada vez mais convencidos de que não estão fazendo política. Alguns mais espertos, é claro, sabem o que estão fazendo.

A “bancada Lemann”, as parcerias público-privadas “sem custo” para o Estado, as assessorias para a formação de gestores públicos mediadas pela filantropia empresarial, nada disso é pura benemerência – ou, na chave invertida da esquerda, pura malevolência. Tudo isso é política, o que também inclui o ato negar as aparências e de disfarçar as evidências quando convém. Para os que estão escandalizados com a dispensa dos dirigentes regionais reprovados na “entrevista de emprego” com o secretário, me permitam dizer que a lógica privada de gestão já dá o tom na rede estadual paulista há mais de duas décadas. Os resultados produzidos – segundo a própria métrica avaliativa que esse pessoal adora – são pífios.

É evidente que um candidato não alinhado ao neopositivismo rastaquera da “nova” SEDUC (ex-SEE) jamais seria contratado para a função de dirigente regional de ensino. Os dirigentes que perderam seus cargos foram moídos pela mesma máquina que têm ajudado a fazer girar. É capaz que alguns ainda saiam acreditando que nada disso tem a ver com política. Eles precisam parar de seguir o coração e olhar mais para as evidências.”

Texto de Fernando Cássio.

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