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27/09/2025

HIPERTRICOSE

 Petrus era um garoto diferente dos demais devido a uma condição médica que fazia com que seu corpo e rosto fossem completamente cobertos por pelos espessos, exceto pelas palmas das mãos e solas dos pés, particularidades associadas a de um lobisomem.


Essa característica hoje é conhecida como Hipertricose, mas, no século 16, era algo desconhecido e visto como assustador pela população. O fato despertou a curiosidade da corte francesa em 1547, que passou a acreditar que o garoto, na época com apenas dez anos de idade, era algum tipo de animal exótico de estimação.

Assim, sobre o nome de Dom Petrus Gonsalvus, o jovem viveu boa parte de sua vida na corte como um experimento, onde era monitorado e avaliado, pois o rei acreditava que ele não tinha capacidade de aprendizado. No entanto, o rapaz mostrava-se cada vez mais intelectual e apresentava ter classe como todos ao seu redor.

Com o passar dos anos, Petrus começou a se tornar um homem forte, e despertou o interesse da rainha Catarina de Médici em encontrar uma jovem para se casar com ele, pois ela tinha curiosidade em saber como seriam os seus filhos.

Assim, escolheram a bela Catarina, filha de um serviçal da Corte, com o intuito de avaliar qual seria o comportamento de Petrus diante aquela situação — acreditando que o evento faria com que “o lado animal” do rapaz viesse à tona.

O casamento forçado entre os dois aconteceu em 1554, quando Petrus completou 17 anos de idade, surpreendendo a corte ao não demonstrar nenhum comportamento animalesco, mas sim, se adaptando ao novo status e conhecendo sua nova esposa.

Ao longo do tempo, o casal teve sete filhos, onde quatro deles herdaram a condição de Petrus. A característica fez com que eles fossem exibidos e presenteados como animais de estimação para aristocratas quando a família viajou para a Corte Real.

No entanto, o amor entre Catherine e Petrus resistiu. Ela não fugiu da aparência dele, tampouco o rejeitou. Essa mulher — real, de carne, osso e coragem — foi, na essência, a primeira Bela da história e Petrus a fera.

Por fim, os últimos dias da vida de Petrus foram passados em Capodimonte, no Lago Bolsena, na Itália, lugar para o qual tinha viajado anos antes com sua esposa e que foi o último a morar, visto que faleceu em 1618, por volta dos 80 anos de idade, deixando Catarina viúva.

Duzentos anos depois, em 1740, Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve publica La Belle et la Bête, um conto escrito para o público adulto da aristocracia francesa. A narrativa não nasceu da fantasia pura, mas sim do eco de histórias verídicas. E uma delas era a do casal Petrus e Catherine, amplamente conhecido nas cortes e crônicas europeias dos séculos XVI e XVII.

Villeneuve cria a história de uma jovem virtuosa, entregue ao convívio com uma criatura monstruosa. Mas ao contrário das versões suavizadas modernas, sua obra é repleta de elementos sombrios, er*tic0s e alegóricos: o castelo encantado, o sofrimento do monstro, as escolhas morais, o contraste entre aparência e essência. A Fera, amaldiçoada não por feitiçaria comum, mas por uma condição que oculta sua nobreza, reflete a vida de Petrus, um homem aprisionado na pele de um mito.

A Bela, por sua vez, é uma reconstrução simbólica de Catherine: uma mulher que não foi iludida por promessas mágicas, mas que reconheceu a humanidade por trás da aparência. O conto de Villeneuve, mais complexo e psicológico que o de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (que o reescreveria mais tarde para crianças), não é apenas uma fábula moral — é uma denúncia velada contra a superficialidade, contra a desumanização dos "diferentes".

A história de Petrus Gonsalvus não é um conto de fadas, mas um conto de horror social com um raro desfecho amoroso. Ele foi o "outro" em todas as formas possíveis, geograficamente, biologicamente, visualmente. A sua existência inspirou um conto que, com o tempo, foi suavizado e embelezado pela cultura popular. A Disney transformou a Fera num príncipe carismático escondido sob um feitiço, mas o homem real jamais se livrou de sua aparência.

Por isso, o conto original de Villeneuve — e a vida de Petrus — nos obriga a refletir: quem é a verdadeira fera? Aqueles que julgam pela aparência, ou aquele que, apesar do rosto coberto por pelos, amou, sofreu e foi humano em tudo o que importa?

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