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08/01/2019

OS NOVOS PROFISSIONAIS DA COMUNICAÇÃO - POR EDUARDO VIEIRA

Na esteira dos meus dois últimos artigos, sobre o fim do jornalismo e das assessorias de imprensa como a conhecíamos até agora, ficou faltando uma avaliação essencial: como fica o profissional de comunicação diante desse novo cenário?

Talvez seja a pergunta mais desafiadora do momento em que vivemos na indústria da comunicação. E, provavelmente, uma das respostas mais incômodas.

Os cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda estão entre os mais concorridos nos vestibulares. Para citar um exemplo, somente na Fuvest 2019 são praticamente 32 candidatos disputando cada vaga disponível nesses cursos. Em Relações Públicas são 17 candidatos por vaga.

Ainda assim, a maioria do que se aprende nesses cursos é insuficiente, e por vezes inútil, quando você pensa na perspectiva de formar e capacitar talentos para o mercado de trabalho.

Como empregador num segmento cuja matéria-prima essencial são pessoas – e cujo diferencial é o talento –, esse assunto é uma pedra especial no meu sapato. Frequentemente tenho conversas com profissionais de RH, acadêmicos, professores e estudiosos sobre o tema.
Fato: as empresas hoje contratam pessoas por habilidades, não mais por formação.
Realidade: as habilidades que procuramos não estão sendo ensinadas nas universidades e outros tipos de escola.

A especialização isolada entre as disciplinas de comunicação fazia sentido no passado. Quando o mundo era previsível. Quanto mais uma pessoa dominava uma determinada competência, mais ela gerava resultados, pois o contexto em que ela vivia não se alterava ao longo do tempo.

Hoje, o contexto se altera. Profundamente. Em intervalos cada vez menores de tempo.

Como se preparar?

O que o mercado todo busca, hoje, são os “especialistas-generalistas”. Aqueles que estudam em profundidade os princípios de diversos campos da comunicação e aplicam os conceitos particulares mais relevantes para sua especialidade. E que têm, ao mesmo tempo, uma visão do todo. Que os permite navegar por diversas áreas em cenários cada vez mais incertos.

Jornalistas nas redações podem continuar a ser setoristas, mas precisam também entender de dados, de audiência, dos meios digitais e de segmentos correlatos aos que costumam cobrir. São cobrados por qualidade e apuração profunda, além de um grande entendimento de contexto, mas também pela produção de notícias em volume. Devem entender, também, de toda a cadeia da sua indústria, da produção à distribuição.

Publicitários nas agências podem continuar a ser criativos, mas precisam também entender de dados, de audiência, de meios digitais... eu poderia copiar o parágrafo acima. E fazer um outro, abaixo, falando a mesma coisa dos profissionais de RP. Mudam os sabores, mas a essência é a mesma.

Quando você pensa no impacto da tecnologia na vida das pessoas, essa discussão, que já está delicada, se torna dramática.

Jack Ma, fundador do gigante chinês Alibaba, cravou sem dó nem piedade no Fórum Econômico Mundial deste ano:
“A maneira como ensinamos as crianças e jovens é a mesma há 200 anos. É baseada em transmitir conhecimento. Algo que uma máquina aprende muito mais rápido que qualquer ser humano. Com a vantagem de que as máquinas nunca esquecem. E nunca ficam bravas”.

Fora o soco no estômago, o ponto de Ma é um só: nós deveríamos aprender de um jeito diferente das máquinas, porque elas estão começando a assumir funções antes exclusivas dos humanos. E essa competição não é justa.

Professores precisam ensinar coisas que as máquinas não conseguem copiar, que são habilidades comportamentais, não necessariamente técnicas. E isso está longe, muito longe, de acontecer em qualquer curso de comunicação que se tem notícia.

O foco nas chamadas “soft skills”, como são conhecidas essas habilidades, não é novo. Mas ainda são incrivelmente parcos os esforços para conseguirmos ensiná-las às pessoas de uma maneira estruturada.

Aprendemos, desde sempre, que não se ensina bom senso a ninguém: você nasce com ou sem ele. O mesmo vale pra noção da realidade, suas atitudes, seu comportamento.

Aprendemos errado.

Ensinar valores, trabalho em equipe, cuidado pelos outros, respeito, tolerância, pensamento independente, julgamento, sensibilidade para lidar com pessoas de opiniões diferentes... tudo isso se tornou algo absolutamente essencial.

Pegue qualquer livro bom de gestão e você lerá:
Metade das competências requeridas para a maioria das profissões que serão relevantes até 2020 não são consideradas essenciais hoje em dia.
A maioria do conteúdo aprendido no primeiro ano de uma faculdade torna-se obsoleto no fim do curso.
A (imensa) maioria dos casos de sucesso que você aprende em alguns dos melhores MBAs do país é de, pelo menos, cinco anos atrás.
Você não aprende casos de fracasso, em lugar nenhum.

Não podemos mais bancar um ensino que seja orientado pelas respostas prontas e fáceis. Que seja somente lógico e óbvio, centrado no conhecimento especializado, e que não traga dados de realidade do mercado – e da vida.

A segregação entre o que se aprende na escola e o que se aprende nas empresas precisa acabar. Pra ontem à tarde.

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