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31/01/2026

TALIDOMIDA

 Ela tinha acabado de assumir o cargo quando uma farmacêutica exigiu a aprovação de seu remédio milionário. A recusa dela salvou milhares de vidas.


Setembro de 1960. Washington, D.C.

A Dra. Frances Kelsey entrou na Food and Drug Administration em seu primeiro dia de trabalho. Tinha 46 anos, era farmacologista, médica formada, e uma das poucas mulheres na regulação federal de medicamentos. Seus superiores lhe entregaram o que parecia ser uma tarefa rotineira.

Uma empresa farmacêutica chamada Richardson-Merrell solicitava aprovação para um novo sedativo chamado Kevadon. O princípio ativo era a talidomida, que já era um sucesso na Europa e no Canadá. Médicos a prescreviam com entusiasmo para ansiedade, insônia e, principalmente, para enjoo matinal em mulheres grávidas. O medicamento era considerado tão seguro que, em alguns países, era vendido sem receita.

A empresa projetava vendas gigantescas nos Estados Unidos. Queria o remédio nas prateleiras antes do Natal. Esperava que o processo de aprovação levasse semanas — talvez dias.

Eles não faziam ideia de com quem estavam lidando.

A Dra. Kelsey analisou o pedido. Algo não estava certo. Os estudos de segurança eram superficiais. Os dados sobre como o medicamento era metabolizado eram vagos. O mais alarmante: quase não havia informações sobre os efeitos em mulheres grávidas, apesar de o enjoo matinal ser um de seus principais usos.

Ela devolveu o pedido.
“Dados insuficientes. Aprovação negada.”

A Richardson-Merrell ficou chocada. Não era assim que as coisas funcionavam. O remédio já havia sido aprovado em dezenas de países. Gerava milhões em receita. E agora uma funcionária da FDA — e ainda por cima uma mulher — estava bloqueando tudo por “detalhes burocráticos”.

Eles iniciaram uma campanha de pressão que teria quebrado a maioria das pessoas.

Executivos ligaram para os superiores de Kelsey exigindo que ela fosse ignorada. Visitaram seu escritório pessoalmente, usando tamanho e presença para intimidar. Chamaram-na de “burocrata mesquinha”, acusaram-na de “implicar com detalhes irrelevantes”. Disseram que ela era inexperiente, irracional, e que estava prejudicando pacientes ao impedir o acesso a um medicamento benéfico.

A imprensa do setor entrou no ataque. Publicações especializadas questionaram sua competência. A empresa insinuou que ela estava embriagada pelo novo poder.

Imagine estar no lugar dela. Recém-chegada ao cargo. Cercada por homens numa época em que mulheres na ciência eram constantemente desmerecidas. Sem rede de apoio. Sem precedentes. Toda a indústria farmacêutica dizendo que você está errada. Teria sido tão fácil assinar os papéis. Dizer a si mesma: “Se foi aprovado em todo lugar, deve ser seguro”.

Mas Frances Kelsey tinha algo que não podia ser intimidado nem negociado: integridade científica.

Ela exigiu novos estudos. Quando a empresa respondeu de forma insuficiente, ela rejeitou novamente. E de novo. Encontrou novas falhas nos dados. Questionou relatos de danos neurológicos em pacientes britânicos que usavam o medicamento por longos períodos. Apontou inconsistências na pesquisa. E assim, atrasou o processo por onze meses, enquanto a empresa ameaçava e se enfurecia.

Então veio novembro de 1961.

Relatos começaram a surgir da Alemanha. Médicos observavam um padrão aterrador. Bebês nasciam com focomelia, uma malformação rara e devastadora. Os membros eram extremamente encurtados ou inexistentes. Braços terminavam no ombro com pequenas mãos em forma de nadadeiras. Pernas eram atrofiadas ou ausentes. Muitos apresentavam graves danos em órgãos internos.

Os números eram catastróficos. E logo surgiu a ligação: as mães haviam tomado talidomida durante a gravidez.

A revelação se espalhou pela Europa e Austrália como um incêndio de horror. Mais de 10 mil bebês foram afetados. Metade não sobreviveu à infância. Os que viveram enfrentaram deficiências profundas por toda a vida. As imagens eram insuportáveis: crianças pequenas com corpos cruelmente mutilados.

O mundo farmacêutico entrou em choque. Governos correram para retirar o medicamento das prateleiras. Processos judiciais explodiram. Carreiras foram destruídas. Mas o dano já era irreversível. Uma geração inteira de famílias foi devastada.

Nos Estados Unidos, a tragédia quase não aconteceu.

Houve apenas alguns casos isolados, causados por amostras distribuídas a médicos durante o processo de aprovação. Mas a catástrofe em larga escala que devastou a Europa nunca ocorreu na América.

Porque uma mulher sentada atrás de uma mesa se recusou a ceder.

Em 1962, o presidente John F. Kennedy convocou a Dra. Kelsey à Casa Branca e lhe concedeu o Prêmio Presidencial por Serviço Civil Distinto, uma das maiores honrarias para um servidor público. Ela foi apenas a segunda mulher a recebê-lo. A cerimônia foi cheia de elogios e gratidão.

Mas, para Frances Kelsey, a verdadeira recompensa não foi a medalha. Foi saber que, em algum lugar dos Estados Unidos, milhares de crianças estavam correndo, brincando, vivendo vidas completas — sem jamais saber o quão perto chegaram de um destino terrível.

Ela provou algo profundo sobre heroísmo. Ele nem sempre é dramático. Às vezes é silencioso. Às vezes é sentar-se diante de dados incompletos e ter a coragem moral de dizer “não” quando todos gritam “sim”.

Às vezes, heroísmo é ser difícil. Ser teimosa. Ser aquela pessoa rotulada como excessivamente cautelosa.

Às vezes, heroísmo é confiar mais na sua formação, na sua intuição e na sua responsabilidade com pessoas que você nunca conhecerá, do que nas vozes poderosas que exigem obediência.

A Dra. Frances Kelsey trabalhou na FDA até os 90 anos de idade. Passou a vida protegendo pessoas que nunca souberam seu nome. E toda criança nascida saudável nos Estados Unidos depois de 1960 deve a ela uma dívida impossível de medir.

Ela não impediu uma bala.
Ela impediu que uma caneta assinasse um papel.

E isso fez toda a diferença.

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