O recente "documentário" do Brasil Paralelo, "Pedagogia
do Abandono" vem batendo com força na velha tecla de que as escolas
brasileiras estão desvirtuadas pelo excesso da pedagogia do Paulo Freire,
pedagogia esta que, por terem certeza do que se trata e do quanto ela seria
perigosa pros planos deles, pretendem enxovalhá-la o quanto puderem, e muito
êxito já tem conseguido porque, infelizmente, há uma profunda ignorância sobre
esse mestre e sua obra, em todas as camadas sociais.
É preciso esclarecer que o que esse tipo de produto, o tal
"Pedagogia do Abandono", tenta fazer não é exatamente um debate
pedagógico, é uma operação ideológica bem previsível - transformar uma proposta
emancipadora em bode expiatório pra justificar o fracasso estrutural de um modelo
educacional que nunca teve como objetivo emancipar ninguém, como objetiva o
trabalho de Freire.
Vamos colocar as coisas no devido lugar:
Por favor, sejamos minimamente decentes, a escola brasileira
contemporânea não entrou em crise por excesso de Paulo Freire, como pregam os
arautos do obscurantismo, jamais! Entrou em crise porque está cada vez mais
subordinada à lógica de mercado, à financeirização da educação e à captura
empresarial das políticas públicas!
O problema não é “ideologia freiriana demais”; é justamente o oposto, é
ausência praticamente total de qualquer prática freiriana real!
A ideia de que Paulo Freire virou “dogma” nas faculdades é uma palhaçada
que só sendo muito desavisado pra ser convencido disso. O que existe, no
máximo, é uma presença teórica, muitas vezes bem superficial, em currículos
que, na prática, são pressionados por diretrizes tecnicistas, avaliações
padronizadas e metas produtivistas. Ou seja: cita-se Freire no papel, na
teoria, enquanto se executa exatamente o contrário na realidade.
Mas quem se importa de procurar saber né?
É tão mais confortável se entupir de conteúdo raso, mentiroso e
hipócrita...
Ele desce molinho, sem necessidade de mastigação cerebral nenhuma é? Só
pode.
E aqui está o ponto central que o discurso anti-freiriano evita tocar: a
escola atual não é “ruim” por incompetência. Ela é funcional ao sistema.
Funciona perfeitamente pro que foi desenhada a fazer.
Entende?
Ela organiza o tempo, disciplina corpos, naturaliza hierarquias e treina
indivíduos pra operar encaixados dentro das estruturas institucionais que
ordenam a sociedade, lembrando aqui de Louis Althusser, que analisou a
escola como um aparelho ideológico do Estado.
Isso é útil pra quem?
Pensemos nisso.
A educação, nesse sentido, nunca é neutra, ela sempre participa
ativamente da reprodução das relações de produção.
Quando você olha pra escola hoje, com suas provas padronizadas, seu
ranking de desempenho, suas métricas de produtividade, suas plataformas
digitais de controle e seus currículos fragmentados, o que aparece não é um
espaço de formação humana, mas um ambiente de gestão de desempenho. Os alunos
são vistos como meros dados, o professor, um operador e o conhecimento, a
mercadoria.
Consequentemente, é um ambiente excludente, que não está pensado pra
lidar com as diferenças.
E isso se intensifica num contexto de avanço de grupos privados no setor
educacional, que tratam educação como ativo financeiro. Não é exagero! Os
grandes conglomerados educacionais operam na bolsa, com metas de rentabilidade.
Nesse cenário, falar em educação como prática de liberdade, de inclusão, de
humanização, soa ridículo, quase sabotagem.
Aí que a proposta de Freire se torna incômoda mesmo.
Afinal, ele nunca esteve interessado em eficiência no sentido empresarial
né? O real interesse era em consciência. E consciência crítica é perigosa
demais pra qualquer sistema baseado em desigualdade estrutural.
A chamada ~educação bancária~ conceito central na obra dele, é uma
denúncia política. Quando o ensino se reduz à transferência mecânica de
conteúdo, o que se produz não é conhecimento, mas adaptação. O sujeito aprende
a operar dentro do mundo e a não questioná-lo.
Já a pedagogia freiriana desloca completamente esse eixo.
O ponto de partida não é o conteúdo abstrato, distante, impessoal e
massificante mas a realidade concreta do educando. Isso significa partir das
condições materiais de existência - trabalho, território, cultura, opressões
vividas. E não é romantização da experiência como muitos críticos tentam
pintar. É método cabível e revolucionário!
(Que palavra perigosa, herética essa - REVOLUCIONÁRIO! Não é à toa todo
esforço em riscá-la do dicionário da prática educacional...)
É reconhecer que conhecimento não brota no vazio e sim nas contradições
da vida real.
E mais, Freire introduz algo que a escola atual tenta neutralizar a
qualquer custo, que é o conflito. Pra ele, aprender envolve problematizar,
tensionar, desnaturalizar. Não existe educação crítica sem desconforto. Já o
modelo dominante busca exatamente o contrário: estabilidade, previsibilidade,
controle.
Por isso o discurso tecnicista ganha tanta força. Quando se reduz
educação a “competências” e “habilidades para o mercado”, elimina-se a dimensão
política do processo educativo. O aluno deixa de ser sujeito histórico e vira
só recurso humano em treinamento.
E tem uma questão que raramente é dita de forma explícita: uma educação
verdadeiramente crítica é incompatível com níveis extremos de desigualdade
social porque ela expõe as estruturas que produzem essa desigualdade.
Freire sabia disso. Por isso sua pedagogia está profundamente ligada à
ideia de conscientização, não no sentido superficial de “ter opinião”, mas de
compreender as relações de poder que estruturam a sociedade.
Isso inclui, inevitavelmente, questionar exploração econômica,
desigualdade de classe, racismo estrutural, patriarcado e também o uso político
da religião. E é exatamente esse potencial de leitura crítica do mundo que
torna sua obra alvo constante de ataques.
O Brasil Paralelo tenta reduzir isso a “doutrinação” ou “dogma”, porque
o que está em jogo não é uma análise pedagógica honesta, mas uma disputa de
narrativa. É uma tentativa de deslocar o foco, daí ao invés de discutir a
mercantilização e o desmonte da educação, problemas sérios e urgentes de fato,
discute-se um inimigo ideológico construído conveniente.
Enquanto isso, a realidade segue com professores precarizados, escolas
sucateadas, currículos esvaziados de pensamento crítico, merenda escolar
insuficiente e/ou inadequada, expansão do ensino como negócio e uma massa de
estudantes treinada para competir, não para compreender a realidade nem de si,
nem do mundo, nem de nada...
E até onde essa competição é justa?
Desde quando?
Essa competição dá conta de quantos e quais?
E pior, desconhecer a vida e obra de Paulo Freire e distorcer/falsear o
conteúdo dessa obra, pregando ser um projeto de corrupção de crianças e
adolescentes é ter muita confiança e certeza de que somos uma população de
trouxas, de idiotas.
É isso que a equipe do Brasil Paralelo e quem os financia pensa sobre
nós.
Um bando de idiotas úteis ao projeto de poder deles!
O melhor que poderíamos fazer como resposta seria dar o troco através da
busca sincera por conhecimento real sobre esse assunto e o compartilhamento
desse interesse e recursos com quem nos importamos.
A Internet está cheia de excelentes conteúdos sobre o mestre Paulo
Freire, há inclusive a possibilidade de baixar obras dele gratuitamente.
Aproveitemos a facilidade. Com responsabilidade, dignidade, bom
senso.
Gi Stadnicki