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08/02/2026

ESCOLAS CÍVICO-MILITARES

 Artigo de Thiago Amparo na Folha de São Paulo de 5 fev, p. A3.


PELU FIM DAS ISCOLAS SÍVICOS-MILITÁRIS

Nesta semana, alunos de uma escola estadual de Caçapava, no interior de São Paulo, aprenderam, além de comandos militares, a escrever errado as palavras "descansar" e "continência" —na lousa, viam "descançar" e "continêcia".

O erro de grafia no quadro escolar, capturado em vídeo, foi protagonizado por um dos monitores do modelo cívico-militar, no primeiro dia de implementação do programa. Nem os comandos militares, nem os erros de grafia caem no Enem, há de ser registrado.

A resposta da pasta estadual de Educação diante do vexame foi pior que o episódio em si. Para a secretaria estadual, os monitores não atuarão em sala de aula, mas, sim, no reforço da disciplina, do respeito e dos valores cívicos. Ou seja, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) retira 208 policiais militares da aposentadoria e paga uma bolsa-PM de R$ 301,70 por dia para que estes, entre outras coisas, controlem o corte de cabelo dos alunos, fiscalizem seus uniformes, os organizem em filas e os façam cantar o Hino Nacional.

Parte dos familiares é a favor das escolas cívico-militares. A razão, em geral, é a disciplina escolar. Mas é importante separar o joio do trigo.

Professores tampouco são a favor de um ambiente escolar em que a desordem impere. Mas coisa bem diferente é gastar R$ 17 milhões ao ano para que militares, em geral sem educação superior, executem funções para as quais não têm formação. Tarcísio precisa explicar aos pais de alunos mais pobres por que prefere gastar R$ 17 milhões com militares do que com o futuro de seus filhos.

O ensino cívico-militar serve apenas para amedrontar alunos e ensiná-los a respeitar autoridade sem questioná-la, habilidade esta útil apenas para formar a mão de obra barata de ditaduras.

Se, como os liberais, o leitor crê que o alvo da educação é formar os melhores profissionais para o mercado, deve pensar que o foco precisa estar na inovação e na excelência individual, não na subserviência. E se, como os progressistas, vê a educação como caminho para a liberdade, sabe que aquilo que liberta as pessoas é o pensamento crítico, não um cassetete sobre suas cabeças.

HERÁCLITO

 Heráclito, filósofo pré-socrático: "Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois o rio não é o mesmo e o homem não é o mesmo".

RACISMO

 Dizem que os imigrantes europeus chegaram aqui sem nada. Roupa do corpo, fome, trabalho duro. Verdade. Só que essa verdade vem com um rodapé que muita gente faz questão de arrancar.


Eles não chegaram “sem nada” para um Estado neutro. Chegaram para um Estado com plano. Teve política pública, teve subsídio, teve incentivo, teve terra, teve crédito, teve porta aberta. Teve, sobretudo, acesso. E acesso é a moeda invisível que decide quem vira “pioneiro” e quem vira “problema social”.

Agora compare com o outro lado da foto. Ex-escravizados saíram da abolição largados no acostamento da história. Sem terra. Sem escola. Sem indenização. Sem proteção. Com a polícia como recepcionista e o preconceito como lei não escrita - muitas vezes escrita, sim. A República nasceu devendo e escolheu não pagar. E depois ainda pediu “mérito”.

Aí vem o mantra: mas também existia branco pobre. Existia. Existe. E deve ser atendido com políticas sociais fortes, sempre. Só que pobreza não apaga racismo. Racismo atravessa a pobreza e acrescenta uma camada de muro, humilhação e desvantagem que não aparece no discurso bonito do “somos todos iguais”.

O debate sobre cotas não é um concurso de sofrimento. É uma discussão sobre o que o Estado fez e sobre o que ele se recusou a fazer. Um grupo recebeu escada. O outro recebeu empurrão.

E quando alguém grita “mérito”, sem encarar essa largada viciada, não está defendendo justiça. Está defendendo conforto.

E-BOOK GESTÃO DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DA REVELAÇÃO EDUCACIONAL - ISMAEL BRAVO

 

PLANO DE GESTÃO DA UNIDADE EDUCACIONAL ( GESTÃO DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DA REVELAÇÃO EDUCACIONAL - EPISÓDIO 9 - ISMAEL BRAVO)

 

A função do gestor dentro da unidade educacional é revestida de uma nova perspectiva global, ou seja, a de provocar a melhoria do funcionamento da unidade; a de encontrar soluções para os problemas que se colocam localmente para a implementação de novas finalidades educacionais e a de introduzir a inovação para melhorar a qualidade e sua eficácia do ensino.

É necessário rever a concepção de qualidade de ensino, que é inseparável das características econômicas, socioculturais e psicológicas da comunidade.

Para isso objetiva-se dar suporte ao gestor para desempenhar o papel de catalisador, que é o de prover soluções, de viabilizar o processo de melhoria e inovação, a fim de poder inspirar, estimular, orientar e criar o clima necessário à criatividade e comprometimento de sua equipe.

Todo este envolvimento estabelece uma unidade educacional de aprendizagem e inovação, significando uma mudança de mentalidade funcional dentro da instituição.

As experiências sociais e culturais (o meio em que vivem, as relações familiares e a educação familiar), as motivações e as expectativas em relação à unidade educacional e ao futuro é que indicam o modo preciso para o sistema educacional direcionar suas ações no antecipar-se ao possível fracasso educacional dos alunos.

Estar o aluno motivado ao estudo não depende apenas da sua capacidade, pois, para se saber do que cada um é capaz, é preciso verificar antes as condições reais de vida que se sobrepõem à motivação individual, em mais esse aspecto do Contexto Educacional.

Lembrando, postados os episódios nas redes sociais como: Facebook, Instagram, Whatsapp, LinkedIn, X e no site ismaelbravo.com em vídeo e áudio no canal Contexto Educacional no Youtube e Spotify.

PREPARAR O DESENVOLVIMENTO DA UNIDADE EDUCACIONAL ( GESTÃO DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DA REVELEÇÃO EDUCACIONAL - EPISÓDIO 8 - ISMAEL BRAVO)

 

O sucesso da condução do trabalho é atingível quando há o diagnóstico correto dos processos é obtido uma visão plena da organização educacional, e que a gestão venha a fornecer toda a fundamentação e os pressupostos básicos necessários para a solução dos problemas. Para poder cumprir todos os passos da definição clara de quais melhorias e/ou inovações que se pretende implantar na unidade educacional, sendo assim, fica estabelecido a necessidade de se utilizar um método para se alcançar os objetivos definidos.

Para o estabelecer das orientações na direção da busca do dimensionamento e do rumo de sua gestão e medir a extensão da meta pretendida, o gestor deve realizar a autoavaliação da gestão da unidade.

O que deve ficar assentado que todos na unidade educacional devem estar comprometidos com a melhoria da qualidade do ensino e, para isso, deverão desenvolver um programa interno de autoavaliação da gestão da unidade.

O intuito é proporcionar as unidades educacionais, ao sistema e a rede de ensino a oportunidade de a própria unidade educacional, reavaliar, refletir, reelaborar seus rumos, reexaminar atitudes, rever propostas, ações e perspectivas. O crescimento se faz coletivo e o papel da unidade na comunidade delineia-se progressivamente de forma clara e inequívoca.

A autoavaliação da gestão nas unidades deve ser priorizada por ser uma via de reflexão, aprendizado e crescimento para a comunidade da unidade. O valor pedagógico desse processo será proporcional ao empenho da unidade e à participação democrática e representativa, de todos os segmentos da comunidade educacional da unidade, em mais esse aspecto do Contexto Educacional.

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31/01/2026

ÊNFASE AOS ELEMENTOS INTERNOS À GESTÃO DA EDUCAÇÃO (GESTÃO DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DA REVELAÇÃO EDUCACIONAL - EPISÓDIO 7 - ISMAEL BRAVO)

 

A gestão dos elementos internos se exerce tal qual uma expressão da vontade coletiva, na qual cabe ao gestor reger competências que se distribuam no todo da unidade educacional.

A grande característica do gestor para a transformação é saber ouvir, pois, é um especialista em escutar vozes; as vozes de seu tempo e de seu espaço, as vozes de outros tempos e de outros espaços.

Ao desenvolver a habilidade de conhecer o seu universo de atuação, o gestor criará o clima organizacional necessário para o envolvimento de todos e para efetivar a participação. Por outro lado, a contribuição do gestor não será jamais produzir um colaborador modelo ou discípulo e assecla, mas motivar o afloramento de sua capacidade, para que ele também seja gestor.

São os elementos internos que estão sob a égide da unidade educacional e que são marcantes no dia a dia da sua gestão, pois são eles que devem constar e contextualizar o como será sua forma de gestar. Seus processos têm de ser formalizados, de modo que sejam evidenciados na condução da unidade educacional, em mais esse aspecto do Contexto Educacional.

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ÊNFASE AOS ELEMENTOS EXTERNOS À GESTÃO DA EDUCAÇÃO (GESTÃO DA EDUCAÇÃO NO CONTEXTO DA REVELAÇÃO EDUCACIONAL - EPISÓDIO 6 - ISMAEL BRAVO)

 

O dia a dia do Gestor é revestido de uma série de elementos constantes do cotidiano da educação, porém, existem situações de ordem hierárquica que são definidas pelo modo como a sociedade foi se organizando ao longo de sua história.

As unidades educacionais particulares são constituídas pela iniciativa privada, devendo sua obediência acadêmica às determinações da Gestão Pública que autorizou seu funcionamento, guardando à sua gestão as estratégias de atuação na oferta dos níveis e modalidades de ensinos aprovados para seu funcionamento.

Quanto às unidades educacionais públicas, sua gestão, é por vezes definida pelo modo como é organizada a educação na instância de governo a qual se reporta, ficando ao Gestor, o papel de liderança e de mobilização para sua gestão, junto à comunidade interna e externa.

Assim, o gestor, atuando nessas duas formas de organização, percebe a necessidade do entendimento na interpretação e aplicação das normas legais estabelecidas para o funcionamento da educação com o entendimento de como é organizada a legislação no país e quais leis afetam diretamente a atuação na unidade educacional.

Ao Gestor cabe o discernimento para a interpretação e cumprimento das disposições legais e, por essa razão, serão abordadas e contextualizadas as leis que diretamente afetam a gestão da educação, em mais esse aspecto do Contexto Educacional.

Lembrando, postados os episódios nas redes sociais como: Facebook, Instagram, Whatsapp, LinkedIn, X e no site ismaelbravo.com em vídeo e áudio no canal Contexto Educacional no Youtube e Spotify.


MENTE: SÓCRATES E AMIZADE, ENVELHECIMENTO DO CÉREBRO, FERNANDO PESSOA E CLAREZA MENTAL

 Citação do dia do antigo filósofo Sócrates sobre amizades: "O amigo deve ser como o dinheiro, cujo valor já conhecemos antes..." - Correio Braziliense - Radar.

Seis hábitos de Harvard para adiar o envelhecimento do cérebro | Exame.

7 frases de

Fernando Pessoa

para quem busca paz e clareza mental.

TALIDOMIDA

 Ela tinha acabado de assumir o cargo quando uma farmacêutica exigiu a aprovação de seu remédio milionário. A recusa dela salvou milhares de vidas.


Setembro de 1960. Washington, D.C.

A Dra. Frances Kelsey entrou na Food and Drug Administration em seu primeiro dia de trabalho. Tinha 46 anos, era farmacologista, médica formada, e uma das poucas mulheres na regulação federal de medicamentos. Seus superiores lhe entregaram o que parecia ser uma tarefa rotineira.

Uma empresa farmacêutica chamada Richardson-Merrell solicitava aprovação para um novo sedativo chamado Kevadon. O princípio ativo era a talidomida, que já era um sucesso na Europa e no Canadá. Médicos a prescreviam com entusiasmo para ansiedade, insônia e, principalmente, para enjoo matinal em mulheres grávidas. O medicamento era considerado tão seguro que, em alguns países, era vendido sem receita.

A empresa projetava vendas gigantescas nos Estados Unidos. Queria o remédio nas prateleiras antes do Natal. Esperava que o processo de aprovação levasse semanas — talvez dias.

Eles não faziam ideia de com quem estavam lidando.

A Dra. Kelsey analisou o pedido. Algo não estava certo. Os estudos de segurança eram superficiais. Os dados sobre como o medicamento era metabolizado eram vagos. O mais alarmante: quase não havia informações sobre os efeitos em mulheres grávidas, apesar de o enjoo matinal ser um de seus principais usos.

Ela devolveu o pedido.
“Dados insuficientes. Aprovação negada.”

A Richardson-Merrell ficou chocada. Não era assim que as coisas funcionavam. O remédio já havia sido aprovado em dezenas de países. Gerava milhões em receita. E agora uma funcionária da FDA — e ainda por cima uma mulher — estava bloqueando tudo por “detalhes burocráticos”.

Eles iniciaram uma campanha de pressão que teria quebrado a maioria das pessoas.

Executivos ligaram para os superiores de Kelsey exigindo que ela fosse ignorada. Visitaram seu escritório pessoalmente, usando tamanho e presença para intimidar. Chamaram-na de “burocrata mesquinha”, acusaram-na de “implicar com detalhes irrelevantes”. Disseram que ela era inexperiente, irracional, e que estava prejudicando pacientes ao impedir o acesso a um medicamento benéfico.

A imprensa do setor entrou no ataque. Publicações especializadas questionaram sua competência. A empresa insinuou que ela estava embriagada pelo novo poder.

Imagine estar no lugar dela. Recém-chegada ao cargo. Cercada por homens numa época em que mulheres na ciência eram constantemente desmerecidas. Sem rede de apoio. Sem precedentes. Toda a indústria farmacêutica dizendo que você está errada. Teria sido tão fácil assinar os papéis. Dizer a si mesma: “Se foi aprovado em todo lugar, deve ser seguro”.

Mas Frances Kelsey tinha algo que não podia ser intimidado nem negociado: integridade científica.

Ela exigiu novos estudos. Quando a empresa respondeu de forma insuficiente, ela rejeitou novamente. E de novo. Encontrou novas falhas nos dados. Questionou relatos de danos neurológicos em pacientes britânicos que usavam o medicamento por longos períodos. Apontou inconsistências na pesquisa. E assim, atrasou o processo por onze meses, enquanto a empresa ameaçava e se enfurecia.

Então veio novembro de 1961.

Relatos começaram a surgir da Alemanha. Médicos observavam um padrão aterrador. Bebês nasciam com focomelia, uma malformação rara e devastadora. Os membros eram extremamente encurtados ou inexistentes. Braços terminavam no ombro com pequenas mãos em forma de nadadeiras. Pernas eram atrofiadas ou ausentes. Muitos apresentavam graves danos em órgãos internos.

Os números eram catastróficos. E logo surgiu a ligação: as mães haviam tomado talidomida durante a gravidez.

A revelação se espalhou pela Europa e Austrália como um incêndio de horror. Mais de 10 mil bebês foram afetados. Metade não sobreviveu à infância. Os que viveram enfrentaram deficiências profundas por toda a vida. As imagens eram insuportáveis: crianças pequenas com corpos cruelmente mutilados.

O mundo farmacêutico entrou em choque. Governos correram para retirar o medicamento das prateleiras. Processos judiciais explodiram. Carreiras foram destruídas. Mas o dano já era irreversível. Uma geração inteira de famílias foi devastada.

Nos Estados Unidos, a tragédia quase não aconteceu.

Houve apenas alguns casos isolados, causados por amostras distribuídas a médicos durante o processo de aprovação. Mas a catástrofe em larga escala que devastou a Europa nunca ocorreu na América.

Porque uma mulher sentada atrás de uma mesa se recusou a ceder.

Em 1962, o presidente John F. Kennedy convocou a Dra. Kelsey à Casa Branca e lhe concedeu o Prêmio Presidencial por Serviço Civil Distinto, uma das maiores honrarias para um servidor público. Ela foi apenas a segunda mulher a recebê-lo. A cerimônia foi cheia de elogios e gratidão.

Mas, para Frances Kelsey, a verdadeira recompensa não foi a medalha. Foi saber que, em algum lugar dos Estados Unidos, milhares de crianças estavam correndo, brincando, vivendo vidas completas — sem jamais saber o quão perto chegaram de um destino terrível.

Ela provou algo profundo sobre heroísmo. Ele nem sempre é dramático. Às vezes é silencioso. Às vezes é sentar-se diante de dados incompletos e ter a coragem moral de dizer “não” quando todos gritam “sim”.

Às vezes, heroísmo é ser difícil. Ser teimosa. Ser aquela pessoa rotulada como excessivamente cautelosa.

Às vezes, heroísmo é confiar mais na sua formação, na sua intuição e na sua responsabilidade com pessoas que você nunca conhecerá, do que nas vozes poderosas que exigem obediência.

A Dra. Frances Kelsey trabalhou na FDA até os 90 anos de idade. Passou a vida protegendo pessoas que nunca souberam seu nome. E toda criança nascida saudável nos Estados Unidos depois de 1960 deve a ela uma dívida impossível de medir.

Ela não impediu uma bala.
Ela impediu que uma caneta assinasse um papel.

E isso fez toda a diferença.

CIÊNCIA: COLISÃO CÓSMICA NO BRASIL, FUNGO NO REATOR DE CHERNOBYL

 Estudo liderado pela Unicamp aponta colisão cósmica no Brasil há mais de seis milhões de anos.

Fungo encontrado no reator de Chernobyl desafia a biologia: cresce sob radiação letal, usa melanina para converter energia nuclear em metabolismo ativo e prospera onde a vida deveria ser impossível - CPG Click Petróleo e Gás.


25/01/2026

MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA

 Ela nasceu no deserto da Somália, em 1965.

Era uma entre doze filhos de uma família nômade que conduzia cabras por algumas das paisagens mais áridas do planeta. Aos seis anos, Waris Dirie já era responsável por sessenta cabras e ovelhas. Todos os dias caminhava com elas pelo deserto em busca de pasto. Água era escassa. Comida era escassa. Tudo girava em torno da sobrevivência. Seu nome significava “flor do deserto”.

Quando tinha apenas cinco anos, uma mulher idosa foi até ela. Usava uma lâmina quebrada e suja de sangue. Não havia anestesia. Não havia esterilização. Waris foi vendada, recebeu uma raiz para morder e foi imobilizada pela própria mãe, enquanto uma tia ajudava a segurá-la. Então começou o corte.

Mutilação genital feminina.
Tipo III — a forma mais extrema. Tudo foi removido. Tudo foi costurado com espinhos de acácia e linha branca, deixando apenas uma pequena abertura. A dor era indescritível. Uma de suas irmãs morreu por complicações. Duas primas também morreram. Waris sobreviveu.

A mãe lhe explicou que aquilo precisava acontecer. Em nome de Alá. Em nome da tradição. Todas as meninas passavam por isso. Na Somália, estima-se que cerca de 98% das mulheres tenham sido submetidas à mutilação genital.

Aos treze anos, o pai fez um anúncio: o casamento dela havia sido arranjado. O noivo tinha sessenta anos. O preço da noiva: cinco camelos. Numa atitude silenciosa de coragem, a mãe ajudou Waris a fugir durante a noite.

Ela atravessou o deserto sozinha. Uma menina de treze anos caminhando por um dos territórios mais perigosos do mundo, sem mapa, sem dinheiro, sem proteção. Chegou a Mogadíscio. De lá, um tio recém-nomeado embaixador da Somália no Reino Unido concordou em levá-la para Londres — como empregada doméstica.

Waris era analfabeta. Não falava inglês. Trabalhou sem receber salário. Quando o mandato do tio terminou, em 1985, a família voltou para a Somália. Waris ficou. Ilegalmente.

Alugou um quarto no YMCA. Conseguiu trabalho limpando no McDonald’s. À noite, frequentava aulas de inglês. Tinha dezoito anos, estava sozinha em uma cidade estrangeira e aprendia a ler e escrever pela primeira vez.

Em 1987, um fotógrafo entrou naquele McDonald’s. Era Terence Donovan, um dos fotógrafos de moda mais famosos do mundo. Ele percebeu algo em seu rosto: beleza, presença, singularidade. Perguntou se ela queria ser modelo. Waris aceitou.

No mesmo ano, foi fotografada para o Calendário Pirelli ao lado de uma então desconhecida Naomi Campbell. Da noite para o dia, tudo mudou. Waris Dirie saiu do chão que esfregava para as passarelas de Paris, Milão, Londres e Nova York. Tornou-se rosto de marcas como Chanel, Levi’s, L’Oréal e Revlon. Foi a primeira mulher negra a aparecer em um anúncio da Oil of Olay. Estampou capas da Vogue, Elle e Glamour. Em 1987, atuou como uma Bond girl em The Living Daylights.

Ela vivia o sonho.
Mas o pesadelo nunca a deixou.

Carregava diariamente as marcas físicas e emocionais do que lhe havia sido feito aos cinco anos. Sofria dores crônicas, dificuldades íntimas e consequências permanentes da mutilação genital. Durante anos, permaneceu em silêncio.

Até 1997.

No auge da carreira, uma jornalista da revista Marie Claire, Laura Ziv, foi entrevistá-la. A pauta seria sua história de “Cinderela africana”. Mas Waris mudou o rumo da conversa. Disse que histórias de modelos já haviam sido contadas inúmeras vezes. Se a revista prometesse publicar, ela daria uma história real.

E contou tudo.

O que lhe aconteceu. O que acontece com milhões de meninas. O que continuava acontecendo todos os dias. A entrevista foi publicada com o título “A tragédia da circuncisão feminina” e provocou repercussão mundial. Pela primeira vez, a mutilação genital feminina tinha um rosto, um nome e uma voz.

No mesmo ano, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, nomeou Waris Dirie embaixadora especial para a erradicação da mutilação genital feminina. Ela se aposentou da carreira de modelo aos 32 anos, no auge do sucesso. Tinha uma missão maior.

Viajou o mundo representando a ONU. Falou com presidentes, ganhadores do Nobel, artistas e líderes globais. Em 1998, publicou sua autobiografia Desert Flower, que se tornou um best-seller internacional com mais de 11 milhões de cópias vendidas em mais de cinquenta idiomas.

O mundo passou a entender que a mutilação genital feminina não era uma tradição inofensiva, mas uma violação brutal dos direitos humanos.

Fundou organizações, abriu centros médicos especializados para vítimas, escreveu outros livros e teve sua história transformada em filme em 2009. Mas sua maior conquista não foram prêmios nem fama. Foi a mudança concreta.

Desde que começou a falar, as taxas de mutilação caíram drasticamente em várias regiões da África. Leis foram aprovadas. Campanhas educativas alcançaram milhões. Meninas que enfrentariam a lâmina foram poupadas.

Hoje, Waris Dirie segue lutando. Diz que quer acabar com a mutilação genital feminina definitivamente em sua geração.

Ela não apenas sobreviveu.
Transformou sua dor em propósito.
Seu trauma em um movimento global.
Seu silêncio em uma voz que ecoou pelo mundo.

Nascida como uma flor do deserto nas condições mais duras imagináveis, Waris Dirie floresceu — e fez questão de garantir que milhões de outras meninas também tivessem a chance de florescer. Não como vítimas, mas como mulheres inteiras, fortes e livres, como sempre deveriam ter sido.

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