Durante cerca de três séculos, um dos trabalhos mais degradantes do
Brasil colonial e imperial ficou nas costas de homens escravizados conhecidos
como “tigres”. Em uma época em que a maioria das cidades não possuía rede de
esgoto, água encanada ou banheiros, eram eles os responsáveis por recolher e
transportar diariamente os dejetos humanos das casas até rios, praias ou áreas
de descarte.
As necessidades eram feitas em penicos e despejadas em grandes tonéis de
madeira. Esses recipientes eram carregados nas costas dos escravizados pelas
ruas das cidades. Durante o trajeto, era comum que os barris vazassem. A
mistura de fezes, urina, ureia e amônia escorria sobre seus corpos, provocando
queimaduras químicas e deixando manchas esbranquiçadas na pele escura. As
marcas lembravam listras, dando origem ao apelido pejorativo de “tigres”. Além
da violência física, eles também eram isolados socialmente: o forte odor fazia
com que as pessoas evitassem qualquer aproximação.
O ofício era comum em diversas cidades brasileiras, especialmente no Rio
de Janeiro, onde, durante boa parte do século XIX, fossas eram proibidas em
algumas áreas devido às características do solo e do lençol freático. Muitos
desses trabalhadores eram escravizados pertencentes a famílias ou escravos de
aluguel, obrigados a realizar esse serviço diariamente. Apenas a partir da
década de 1860, com as primeiras obras de saneamento impulsionadas no Império,
essa atividade começou a desaparecer gradualmente, permanecendo por mais tempo
em cidades como Recife e São Paulo.
Historiadores também apontam que a ampla utilização dessa mão de obra
contribuiu para retardar investimentos em sistemas modernos de esgotamento
sanitário. Enquanto existiam pessoas obrigadas a realizar esse trabalho
desumano, a necessidade de criar soluções estruturais parecia menos urgente
para as elites da época.
A história dos
“tigres” revela até onde uma sociedade pode chegar quando decide que
determinadas pessoas existem apenas para servir às outras. Não bastava retirar
a liberdade; era preciso retirar também a dignidade, obrigando seres humanos a
carregar, literalmente, o peso e os restos da vida de quem se considerava
superior.
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