Ela nasceu neta do último rei da
Baviera e terminou seus dias no Brasil como a mulher que, em outra realidade
política, poderia ter usado a coroa de imperatriz do Brasil. Em 9 de setembro
de 1914, enquanto a Europa mergulhava na Primeira Guerra Mundial, nascia no
Palácio de Nymphenburg, em Munique, a princesa Maria Elisabeth Franziska
Josepha Therese da Baviera, uma Wittelsbach que décadas mais tarde uniria seu
destino ao dos descendentes da princesa Isabel.
Maria Elisabeth era filha do príncipe
Franz da Baviera e da princesa Isabella Antonie de Croÿ e neta paterna de
Ludwig III, o último rei da Baviera. Seu nascimento ocorreu, portanto, dentro
de uma monarquia ainda viva: seu avô ocupava o trono bávaro desde 1913, mas a
derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e a revolução de 1918 encerrariam o
reinado dos Wittelsbach. Quando Maria Elisabeth tinha apenas quatro anos, a
coroa que parecera parte natural de sua infância havia desaparecido.
Curiosamente, ela também possuía uma
ligação de sangue com uma das mulheres mais célebres da história dos
Wittelsbach: a imperatriz Elisabeth da Áustria, a lendária Sissi. O parentesco
era distante, mas perfeitamente identificável. Ludovika da Baviera, mãe de
Sissi, era meia-irmã do rei Ludwig I da Baviera. Ludwig I, por sua vez, foi pai
do príncipe-regente Luitpold, bisavô de Maria Elisabeth. Assim, Sissi era
prima-irmã de Luitpold; genealogicamente, Maria Elisabeth e a famosa imperatriz
austríaca eram primas de primeiro grau separadas por três gerações.
A conexão de Maria Elisabeth com o
Brasil começou em 19 de agosto de 1937, quando, aos 22 anos, ela se casou na
capela do Palácio de Nymphenburg com o príncipe Pedro Henrique de Orléans e
Bragança. Ele era bisneto de D. Pedro II e neto da princesa Isabel através do
príncipe Luís de Orléans e Bragança. Para os partidários do chamado ramo de
Vassouras, Pedro Henrique era, desde a morte da princesa Isabel em 1921, o
chefe da Casa Imperial do Brasil e herdeiro dinástico do trono extinto.
A partir daquele casamento, D. Maria
Isabel da Baviera passou a ocupar uma posição singular dentro da tradição
dinástica brasileira. Essa posição, contudo, não era consensual. A sucessão
defendida pelo ramo de Vassouras baseava-se na renúncia feita em 1908 por Pedro
de Alcântara, filho mais velho da princesa Isabel, antes de seu casamento com
Elisabeth Dobrzensky de Dobrzenicz. Décadas depois, seus descendentes do
chamado ramo de Petrópolis contestariam a validade e o alcance dessa renúncia.
Por isso, qualquer afirmação de que D. Maria Isabel teria sido necessariamente
imperatriz deve ser acompanhada dessa ressalva: caso a monarquia brasileira
tivesse sido restaurada sob a linha sucessória reconhecida pelo ramo de
Vassouras, Pedro Henrique seria considerado imperador e D. Maria Isabel, sua imperatriz-consorte.
O casamento produziu uma família
extraordinariamente numerosa para os padrões das casas reais do século XX:
foram doze filhos. Impedidos pela Segunda Guerra Mundial de se estabelecer
imediatamente no Brasil, Pedro Henrique e D. Maria Isabel somente conseguiram
transferir definitivamente a família para o país em 1945. Passaram inicialmente
por Petrópolis e, mais tarde, pela Fazenda Santa Maria, em Jacarezinho, no
Paraná, antes de se estabelecerem em Vassouras, cidade profundamente ligada à
memória do Império brasileiro.
Ali, D. Maria Isabel da Baviera
construiu uma vida muito diferente daquela sugerida pelos palácios de sua
infância. Nascida entre os Wittelsbach, neta de um rei e aparentada com Sissi,
tornou-se a matriarca de uma extensa família brasileira, vivendo durante
décadas num país que já não possuía trono, mas onde seus descendentes
continuaram representando uma das interpretações da sucessão imperial.
Pedro Henrique morreu em 5 de julho
de 1981. D. Maria Isabel permaneceu viúva durante quase trinta anos e viu seu
filho mais velho, Luiz, assumir a chefia do ramo de Vassouras. Ela faleceu no
Rio de Janeiro em 13 de maio de 2011, aos 96 anos — justamente em uma data
carregada de simbolismo para a família em que ingressara pelo casamento: o
aniversário da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, em 1888. No dia
seguinte, foi sepultada em Vassouras, ao lado da família que fizera do Brasil
sua segunda pátria.
D. Maria Isabel da Baviera jamais foi
imperatriz, assim como seu marido jamais ocupou um trono. Ainda assim, sua
trajetória reuniu duas monarquias desaparecidas: nasceu sob a sombra da coroa
dos Wittelsbach na Baviera e tornou-se esposa do homem que uma importante
corrente monarquista brasileira reconhecia como herdeiro da coroa dos Bragança.
Entre Nymphenburg e Vassouras, sua vida atravessou guerras, quedas de
dinastias, exílio e mudanças de continente — uma princesa europeia cuja
história terminou profundamente ligada ao último capítulo ainda vivo da
tradição imperial brasileira.
Texto: Renato Drummond Tapioca
Neto