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15/08/2026

MARIGHELA

 

CARLOS MARIGHELLA: O HOMEM QUE PASSOU DA POLÍTICA À LUTA ARMADA E SE TORNOU O INIMIGO Nº 1 DA DITADURA

 📜 Carlos Marighella (1911–1969) é uma das figuras mais controversas e importantes para compreender a história política brasileira do século XX. Para alguns, foi um símbolo da resistência à ditadura; para outros, um dirigente revolucionário que optou pela luta armada e pela violência política. A documentação histórica permite compreender sua trajetória sem transformar o personagem em mito — nem apagar seus atos.

🔎 Quem foi Carlos Marighella?

Carlos Marighella nasceu em 5 de dezembro de 1911, em Salvador, Bahia, filho de Augusto Marighella e Maria Rita do Nascimento Marighella. Era descendente de italiano pelo lado paterno e de uma mulher negra descendente de africanos escravizados pelo lado materno.

Desde jovem demonstrou interesse por política, literatura e poesia. Estudou Engenharia Civil na Escola Politécnica da Bahia, mas não concluiu o curso. Ainda muito jovem, aproximou-se do movimento comunista e passou a atuar politicamente.

Sua primeira prisão ocorreu em 1932, quando tinha apenas 20 anos. Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, voltou a ser perseguido e preso. Segundo os registros históricos, passou anos encarcerado e sofreu violência e tortura durante suas detenções.

 ⚒️ O militante comunista

Marighella ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e tornou-se um de seus principais dirigentes.

Após a redemocratização de 1945, foi eleito deputado federal constituinte pela Bahia pelo PCB. Entretanto, a legalidade do partido duraria pouco. Em 1947, o registro do PCB foi cancelado e, em 1948, os mandatos dos parlamentares comunistas foram cassados.

Marighella voltou então à clandestinidade.

Durante as décadas seguintes, manteve intensa atividade política. Em 1953 e 1954, esteve na China a convite do PCB, em uma viagem destinada a conhecer a experiência da Revolução Chinesa.

🇧🇷 1964: o golpe militar muda definitivamente sua trajetória

O golpe de 31 de março/1º de abril de 1964 marcou uma nova fase.

Em maio daquele ano, Marighella foi localizado por agentes do DOPS dentro de um cinema no Rio de Janeiro. Foi baleado e preso.

Libertado posteriormente por decisão judicial, passou a defender uma oposição cada vez mais radical ao regime.

As divergências com a direção do PCB se aprofundaram. Marighella defendia uma estratégia de enfrentamento que a direção partidária não aceitava.

Em 1967, foi expulso do PCB.

No ano seguinte, ajudou a organizar a Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das principais organizações da luta armada contra a ditadura brasileira.

 🔴 A ALN e a luta armada

A partir de 1968, a trajetória de Marighella entrou definitivamente no terreno da guerrilha urbana.

A ALN realizou ações para obtenção de recursos, incluindo assaltos a bancos e outras operações armadas. O grupo também participou de ações de grande repercussão internacional.

Uma das mais conhecidas aconteceu em setembro de 1969, quando integrantes da ALN, em conjunto com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), sequestraram o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick.

O objetivo era pressionar o governo pela libertação de presos políticos. Ao final da operação, 15 presos políticos foram libertados e enviados para o México.

📕 O "Minimanual do Guerrilheiro Urbano"

Marighella também se tornou conhecido internacionalmente por seus escritos sobre guerrilha.

Seu "Minimanual do Guerrilheiro Urbano", produzido em 1969, circulou clandestinamente e acabou traduzido para diferentes idiomas. O texto apresentava princípios e métodos de atuação da guerrilha urbana.

A obra tornou Marighella uma referência internacional para movimentos revolucionários, mas também fez dele um dos principais alvos dos órgãos de segurança brasileiros.

 ⚠️ As cápsulas de cianureto

É aqui que surge uma das histórias mais conhecidas sobre seus últimos meses.

Documentos do Centro de Informações do Exército (CIE) registraram que Marighella carregava consigo duas cápsulas de uma substância posteriormente identificada como cianureto. O próprio acervo do Ministério Público Federal reproduz essa informação a partir do Relatório Especial de Informações nº 9/69.

A explicação histórica mais aceita é que Marighella carregava o veneno como recurso extremo para evitar ser capturado vivo e submetido novamente à prisão e à tortura.

Isso fazia sentido dentro da experiência que havia acumulado em décadas de perseguição política e encarceramento.

Mas há uma distinção importante: os documentos comprovam a existência das cápsulas; a intenção específica de utilizá-las naquela noite é reconstruída a partir de depoimentos, documentos e pesquisas posteriores.

💥 4 DE NOVEMBRO DE 1969: A EMBOSCADA

Na noite de 4 de novembro de 1969, Marighella dirigiu-se à Alameda Casa Branca, em São Paulo.

Os órgãos de repressão haviam preparado uma operação para capturá-lo.

Informações obtidas durante a repressão aos seus colaboradores permitiram localizar o ponto de encontro.

Marighella entrou em um Fusca onde estavam os frades dominicanos Ivo e Fernando.

A operação policial começou imediatamente.

Marighella foi atingido por vários disparos e morreu aos 57 anos.

Durante muito tempo, a versão oficial sustentou que ele havia morrido em um tiroteio com agentes do DOPS.

Mas essa versão passou a ser contestada por documentos, perícias e investigações posteriores.

 📂 A documentação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos registrou que Marighella foi atingido por um disparo na aorta à queima-roupa e apontou inconsistências na versão oficial apresentada pelos órgãos de segurança.

O Arquivo Nacional, ao disponibilizar documentos do período, também registra a conclusão de que Marighella foi morto depois de ser dominado, e que seu corpo teria sido colocado dentro do veículo para sustentar a versão de que havia sido abatido durante uma reação armada.

A documentação posteriormente analisada também indicou que Marighella estava desarmado no momento em que foi morto, embora um revólver tenha sido posteriormente associado aos seus pertences. O conjunto documental sobre o episódio permanece fundamental para compreender as circunstâncias de sua morte.

⚖️ O Estado brasileiro reconheceu a perseguição política

A morte de Marighella não encerrou sua história.

Décadas depois, documentos oficiais e trabalhos da Comissão de Mortos e Desaparecidos contribuíram para revisar a narrativa construída pelos órgãos de repressão durante a ditadura.

Em 1996, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente a responsabilidade pela morte de Marighella.

Em 2012, ele recebeu anistia política post mortem.

 📚 UM PERSONAGEM QUE NÃO CABE EM UMA FRASE

Carlos Marighella foi, ao longo de sua vida:

➡️ militante comunista;

➡️ deputado federal constituinte;

➡️ escritor e poeta;

➡️ preso político durante o Estado Novo;

➡️ opositor da ditadura militar;

➡️ dirigente da luta armada;

➡️ fundador e principal líder da ALN;

➡️ autor de textos sobre guerrilha urbana;

➡️ personagem central de um dos episódios mais emblemáticos da repressão política brasileira.

Sua história também revela as profundas divisões existentes dentro da própria esquerda brasileira durante a ditadura: enquanto setores do PCB defendiam a atuação política sem recorrer à luta armada, Marighella concluiu que a resistência deveria assumir uma dimensão militar.

Essa escolha teve consequências graves e levou a ALN a praticar ações armadas, incluindo assaltos e sequestros políticos.

Por isso, estudar Marighella exige mais do que transformá-lo em herói ou vilão.

É necessário compreender o homem, o militante, o deputado, o escritor, o guerrilheiro e o contexto histórico que o levou de uma juventude comunista na Bahia à clandestinidade e à luta armada contra uma ditadura.

 🕯️ Carlos Marighella morreu em 4 de novembro de 1969. Mas o debate sobre sua vida permanece.

Sua trajetória continua provocando uma pergunta fundamental para quem estuda a história do Brasil:

O que acontece com uma sociedade quando a disputa política deixa de ser resolvida pelas instituições e passa a ser travada pela força?

 

 

JESUS HISTÓRICO

 

JESUS: O PRESO POLÍTICO QUE MUITOS CRISTÃOS SEGUEM SEM CONHECER A HISTÓRIA

Você já percebeu uma das maiores contradições da história do cristianismo?

Milhões de pessoas dizem ser cristãs. Dizem seguir Jesus Cristo, defendem seus ensinamentos, carregam sua imagem, colocam sua cruz dentro de suas casas e até usam o nome de Jesus para defender posições políticas.

Mas será que essas pessoas realmente estudaram quem foi Jesus dentro do contexto histórico em que ele viveu?

Porque existe uma realidade que deveria fazer qualquer cristão parar por alguns minutos e pensar:

Jesus foi preso, torturado, julgado e executado pelo poder de seu tempo.

E quando digo que Jesus pode ser compreendido como um preso político, não estou dizendo que ele era político no sentido moderno, como um candidato, deputado ou militante partidário.

Estou falando de outra coisa.

Estou falando de um homem cuja mensagem entrou em choque com estruturas religiosas, sociais e políticas extremamente poderosas.

Jesus nasceu e viveu em uma região submetida ao domínio do Império Romano. A Judeia não era um país independente como conhecemos hoje. Roma exercia o poder imperial, controlava a ordem pública e possuía autoridade para aplicar determinadas formas de punição, inclusive a crucificação.

Ao mesmo tempo, existiam autoridades e instituições judaicas com enorme influência religiosa e social.

Era um mundo em que religião e poder não estavam separados como muitas pessoas imaginam atualmente.

E foi justamente nesse ambiente que apareceu Jesus anunciando algo extremamente provocador:

o Reino de Deus.

Agora pare para pensar.

Naquele mundo existia o poder de César.

Existia o Império Romano.

Existiam reis, governadores, soldados, autoridades religiosas, elites econômicas e estruturas de dominação.

E, no meio disso tudo, aparece um homem dizendo que existe um Reino que não pertence a César.

Um Reino de Deus.

Isso não significa que Jesus tenha organizado uma revolução armada contra Roma.

Não significa que tenha criado um partido político.

Não significa que pretendesse disputar o poder imperial.

Mas significa que sua mensagem colocava uma autoridade acima das autoridades humanas.

E isso, naquele contexto, não era uma mensagem politicamente neutra.

Jesus não pregava simplesmente uma religião para ser praticada dentro de quatro paredes.

Ele falava sobre pobres.

Falava sobre riqueza.

Falava sobre justiça.

Falava sobre poder.

Falava sobre hipocrisia.

Falava sobre aqueles que exploravam os outros.

Falava sobre o próximo.

Falava sobre misericórdia.

Falava sobre os marginalizados.

E, principalmente, apresentava uma maneira diferente de compreender autoridade.

Enquanto o mundo dizia que grande era aquele que dominava, Jesus ensinava que grande era aquele que servia.

Enquanto os poderosos acumulavam privilégios, Jesus colocava os pobres e excluídos no centro de sua mensagem.

Enquanto determinadas estruturas religiosas separavam pessoas entre puras e impuras, dignas e indignas como fazem os bolsonaristas, Jesus atravessava essas fronteiras e se aproximava justamente daqueles que eram rejeitados.

Isso é profundamente desafiador.

E talvez seja exatamente por isso que tanta gente hoje tenha dificuldade para compreender o Jesus histórico.

Porque é muito mais confortável transformar Jesus em um símbolo decorativo do que estudar o homem que enfrentou as estruturas de seu tempo.

Jesus não terminou sua vida em uma cama.

Terminou pregado numa cruz.

E aqui precisamos compreender o significado daquela execução.

A crucificação era uma punição romana brutal e pública. Era também uma forma de demonstração de força.

O condenado não era simplesmente morto.

Seu corpo era exposto.

A mensagem era clara:

Roma tinha poder para destruir quem fosse considerado uma ameaça à ordem estabelecida.

Jesus foi acusado, interrogado e levado diante das autoridades. O processo envolveu autoridades judaicas e romanas em um contexto de tensão política e religiosa.

E, no final, a decisão que levou à crucificação passou pelo poder romano.

Pôncio Pilatos, representante de Roma na Judeia, autorizou sua execução.

E existe um detalhe que merece atenção:

Na cruz foi colocada a identificação de Jesus como “Rei dos Judeus”.

Rei.

Essa palavra, naquele contexto, carregava um peso político que não podemos simplesmente ignorar.

Roma possuía um imperador.

Roma controlava a região.

Roma não tolerava facilmente reivindicações de soberania concorrentes.

E Jesus aparece sendo apresentado como rei.

Por isso, quando eu digo que Jesus foi um preso político, estou chamando atenção para essa dimensão histórica: um homem cuja mensagem e cuja presença foram consideradas perigosas dentro de uma ordem dominada pelo poder imperial.

Ele não precisava empunhar uma espada para ser desafiador.

Às vezes, uma ideia é mais perigosa para um sistema do que uma arma.

E Jesus tinha uma ideia extremamente poderosa:

o poder humano não era absoluto.

César não era Deus.

O Império não era eterno.

A riqueza não era medida de valor humano.

O pobre não era inferior.

O doente não era descartável.

O excluído não deveria ser abandonado.

E o próximo deveria ser amado.

Isso era uma maneira completamente diferente de olhar para o mundo.

Agora vem a parte que mais me faz refletir.

Hoje existem cristãos que defendem políticos tipo Bolsonaro como se estivessem defendendo o próprio Jesus.

Alguns transformam Jesus em símbolo de partido como muitos pastores fizeram com Bolsonaro.

Outros usam Jesus para justificar riqueza os falsos profetas.

Outros usam Jesus para justificar intolerância como fazia Bolsonaro.

Outros falam de Deus enquanto desprezam justamente aqueles que os Evangelhos apresentam como merecedores de cuidado os pobres.

E eu fico pensando:

Será que essas pessoas estudaram o homem que dizem seguir?

Porque seguir Jesus não deveria significar simplesmente repetir seu nome.

Seguir Jesus deveria significar tentar compreender seus ensinamentos.

E compreender seus ensinamentos exige conhecer o mundo em que ele viveu.

Jesus não nasceu dentro de uma democracia moderna.

Não existia Estado democrático de direito como conhecemos.

Não existiam redes sociais.

Não existiam partidos políticos modernos.

Não existia liberdade religiosa nos moldes atuais.

Existia um império.

Existiam soldados.

Existiam impostos.

Existiam desigualdades profundas.

Existiam elites.

Existiam conflitos religiosos.

Existiam pobres.

Existiam pessoas excluídas.

E foi nesse mundo que Jesus começou a anunciar:

“O Reino de Deus chegou.”

Isso é muito maior do que simplesmente dizer “acredite em Deus”.

Era apresentar uma nova maneira de enxergar a existência.

E talvez seja justamente por isso que Jesus continua sendo tão incômodo dois mil anos depois.

Porque o Jesus histórico não cabe perfeitamente na direita.

Não cabe perfeitamente na esquerda.

Não cabe em partido político.

Não pertence a presidente.

Não pertence a pastor.

Não pertence a padre.

Não pertence a empresário.

Não pertence a milionário.

Não pertence a pobre.

Jesus pertence à história.

E cada pessoa que afirma segui-lo deveria ter coragem de estudar essa história antes de usar seu nome para defender aquilo que pensa.

Porque existe uma ironia gigantesca na trajetória do cristianismo:

o homem perseguido pelo poder acabou sendo utilizado posteriormente por diferentes poderes para legitimar suas próprias autoridades.

O homem que foi humilhado na cruz acabou sendo colocado em palácios.

O homem que caminhou entre pobres acabou sendo utilizado para justificar riquezas.

O homem que falou contra a hipocrisia acabou sendo transformado em instrumento de discursos hipócritas.

O homem que foi executado pelo poder imperial acabou sendo apresentado, séculos depois, ao lado de governantes e autoridades.

E talvez seja por isso que estudar Jesus seja tão importante.

Porque acreditar sem estudar pode transformar a fé em repetição.

Mas estudar permite compreender.

E compreender pode transformar a fé em consciência.

Eu não estou dizendo que todo cristão precisa enxergar Jesus exatamente da mesma maneira que eu enxergo.

Estou dizendo que quem afirma seguir Jesus deveria, pelo menos, conhecer o contexto histórico daquele homem.

Porque antes de existir o cristianismo institucional existiu um judeu da Galileia.

Antes das catedrais existiu um homem caminhando pelas estradas.

Antes dos símbolos religiosos existiu uma mensagem.

Antes dos palácios existiu uma cruz.

E antes de ser transformado em símbolo político por diferentes grupos, Jesus foi um homem que desafiou a lógica de seu tempo anunciando que havia uma autoridade maior do que os poderes humanos:

o Reino de Deus.

Talvez essa seja a pergunta que todo cristão deveria fazer antes de dizer que é seguidor de Cristo:

“Eu realmente conheço o homem que estou dizendo que sigo?”

Porque carregar uma cruz no pescoço é fácil.

Difícil é compreender por que aquele homem terminou pregado nela.

E talvez compreender isso seja o primeiro passo para entender o verdadeiro tamanho do desafio que Jesus representou para o mundo em que viveu.

Ass : André Luiz Thiago também conhecido por André Negrão.

 

08/08/2026

ESCRAVIDÃO E DEGRADAÇÃO

Durante cerca de três séculos, um dos trabalhos mais degradantes do Brasil colonial e imperial ficou nas costas de homens escravizados conhecidos como “tigres”. Em uma época em que a maioria das cidades não possuía rede de esgoto, água encanada ou banheiros, eram eles os responsáveis por recolher e transportar diariamente os dejetos humanos das casas até rios, praias ou áreas de descarte.

 

As necessidades eram feitas em penicos e despejadas em grandes tonéis de madeira. Esses recipientes eram carregados nas costas dos escravizados pelas ruas das cidades. Durante o trajeto, era comum que os barris vazassem. A mistura de fezes, urina, ureia e amônia escorria sobre seus corpos, provocando queimaduras químicas e deixando manchas esbranquiçadas na pele escura. As marcas lembravam listras, dando origem ao apelido pejorativo de “tigres”. Além da violência física, eles também eram isolados socialmente: o forte odor fazia com que as pessoas evitassem qualquer aproximação.

 

O ofício era comum em diversas cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro, onde, durante boa parte do século XIX, fossas eram proibidas em algumas áreas devido às características do solo e do lençol freático. Muitos desses trabalhadores eram escravizados pertencentes a famílias ou escravos de aluguel, obrigados a realizar esse serviço diariamente. Apenas a partir da década de 1860, com as primeiras obras de saneamento impulsionadas no Império, essa atividade começou a desaparecer gradualmente, permanecendo por mais tempo em cidades como Recife e São Paulo.

 

Historiadores também apontam que a ampla utilização dessa mão de obra contribuiu para retardar investimentos em sistemas modernos de esgotamento sanitário. Enquanto existiam pessoas obrigadas a realizar esse trabalho desumano, a necessidade de criar soluções estruturais parecia menos urgente para as elites da época.

 

A história dos “tigres” revela até onde uma sociedade pode chegar quando decide que determinadas pessoas existem apenas para servir às outras. Não bastava retirar a liberdade; era preciso retirar também a dignidade, obrigando seres humanos a carregar, literalmente, o peso e os restos da vida de quem se considerava superior.

  

31/07/2026

CIDADANIA FEMININA

 Retirei esse texto do livro que estou escrevendo porque acaba sendo visto como um tema político quando meu livro é sobre Psicanálise. Obviamente tudo tem a ver com tudo, mas estou com receio de deixar e também não queria desperdiçar a reflexão. Selecionei para o livro algumas perguntas que pacientes me fazem no cotidiano e essa foi a resposta que formulei. Então posto aqui. Vocês acham descabido num livro de Psicanálise para mulheres? Segue: 

“Não seria o feminismo o responsável por esse estado de calamidade emocional atual,  em que mulheres e homens não se entendem mais?”
É preciso considerar que se antes as famílias fossem unidas e felizes (dentro da ordem imaginária das famílias tradicionais), não teria havido luta para aprovar leis como a Lei do Divórcio. Se antes as mulheres não fossem exploradas e maltratadas, não teria havido a necessidade de leis de proteção à integridade física delas. 
O movimento feminista não inventou a mulher que trabalha fora de casa. As mulheres trabalhavam como camponesas na Idade Média e como operárias em fábricas, lavanderias, sempre foram as mulheres que cuidaram da limpeza no ramo de hotelaria… As mulheres sempre trabalharam, apenas não tinham direitos civis que incluíam um piso salarial ou direitos trabalhistas. O movimento feminista fez a luta para que elas fossem remuneradas dignamente e pudessem ter direitos básicos, como uma conta bancária para não serem obrigadas a entregar o fruto do próprio trabalho para maridos que gastariam em bordéis e jogatinas (enquanto os filhos morriam de desnutrição), direito à pensão para elas e os filhos nos inúmeros casos em que os maridos abandonavam suas famílias sem contribuir com um centavo no sustento das crianças, o direito de denúncia quando levavam surras ou eram assassinadas. 
O feminismo não está em pauta nas redes sociais e nas conversas cotidianas. O que se vê nesses espaços não tem rigorosamente nada a ver com o feminismo original. Observe os tópicos que foram objeto de luta das precursoras dos movimentos: 
Christine de Pizan (1364–1430): Escritora italiana que combatia a ideia de que as mulheres eram inferiores, pois as mulheres eram consideradas sem capacidade intelectual, uma subespécie em relação aos homens. Eram consideradas como os cachorros ou gatos atualmente, ou como as mulheres pet. 
Mary Wollstonecraft (1759–1797): Filósofa inglesa, escreveu Reivindicação dos Direitos da Mulher, onde argumenta que as mulheres parecem "tolas" apenas porque não recebem educação de qualidade.
Ou seja… Durante mais de 300 anos, a luta foi pelo reconhecimento da capacidade cognitiva das mulheres. A feministas tentavam ainda convencer a sociedade que se as mulheres tivessem o direito de estudar, direito à educação, elas conseguiriam aprender e raciocinar como os homens. 
Olympe de Gouges (1748–1793): Escritora francesa, escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã em 1791 defendendo a inclusão das mulheres nos códigos de direitos políticos e civis   durante a Revolução Francesa.
Muitas mulheres têm saudade de um passado que não conheceram porque não se interessavam nas histórias que suas avós e bisavós tinham para contar.

ODE AO CÃO

 MEU CÃO MORREU 


Meu cão morreu.
Enterrei-o no jardim
junto a uma velha máquina oxidada.  

Ali, nem mais abaixo,
nem mais acima,
algum dia se juntará a mim.  Agora ele já se foi com seu pelo,
sua má educação, seu nariz frio.  

E eu, materialista que não acredita
no celeste céu prometido
para nenhum humano,
para este cão ou para todo cão,
acredito no céu, sim, acredito num céu
onde eu não entrarei, mas ele me espera
abanando sua cauda de leque
para que eu, ao chegar, tenha amigos.  

Ai, não direi a tristeza na terra
de não tê-lo mais como companheiro,
que para mim jamais foi um servo.  

Teve para mim a amizade de um ouriço
que conservava sua soberania,
a amizade de uma estrela independente
sem mais intimidade que a precisa,
sem exageros:  não trepava sobre minhas roupas
enchendo-me de pelos ou sarna,
não se esfregava contra meu joelho
como outros cães obcecados sexuais.  

Não, meu cão me olhava
dando-me a atenção que preciso,
a atenção necessária
para fazer compreender a um vaidoso
que, sendo cão, ele
com aqueles olhos mais puros que os meus,
perdia tempo, mas me olhava
com o olhar que me reservou
toda sua doce, peluda vida,
sua silenciosa vida,
perto de mim, sem me incomodar nunca
e sem me pedir nada.  

Ai, quantas vezes quis ter cauda
andando junto a ele pelas margens
do mar, no inverno de Isla Negra,
na grande solidão: acima o ar
atravessado de pássaros glaciais,
e meu cão saltando, hirsuto, cheio
de voltagem marinha em movimento:  meu cão vagabundo e olfatório
empunhando sua cauda dourada
frente a frente ao Oceano e sua espuma.  

Alegre, alegre, alegre
como os cães sabem ser felizes,
sem nada mais, com o absolutismo
da natureza descarada.  

Não há adeus ao meu cão que morreu.

E não há nem houve mentira entre nós.  

Já se foi e eu o enterrei, e isso era tudo.

..............

Poema de Pablo Neruda (1904-1973), na foto com Calbuco. 

................................

O chileno Neruda tinha legítima afeição pelos animais. Escreveu muitos poemas para eles.  

Oda al perro: 

Escrito na fase madura de Neruda, reflete sua vida em Isla Negra com vários cães (como Calbuco). O poema explora o diálogo silencioso entre homem e animal, a incompreensão humana perante a lealdade canina e a gratidão pela companhia inabalável na solidão.

Oda al gato: 

Publicado em *Navegaciones y regresos (1959), surge na etapa das Odes Elementares, onde Neruda valoriza o cotidiano e a natureza simples. O gato simboliza perfeição instintiva e autonomia, contrastando com aspirações humanas frustradas.

Algumas bestias (Canto General, 1950): 

Parte da seção "La lámpara en la tierra", contextualiza a exuberância da fauna americana pré-colombiana. Neruda usa animais da selva para evocar força primal, mistério e conexão com a terra ancestral chilena, reforçando temas ecológicos e anti-imperialistas da obra.

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