CARLOS MARIGHELLA: O HOMEM QUE PASSOU DA POLÍTICA À LUTA ARMADA E SE
TORNOU O INIMIGO Nº 1 DA DITADURA
Carlos
Marighella (1911–1969) é uma das figuras mais controversas e importantes para
compreender a história política brasileira do século XX. Para alguns, foi um
símbolo da resistência à ditadura; para outros, um dirigente revolucionário que
optou pela luta armada e pela violência política. A documentação histórica
permite compreender sua trajetória sem transformar o personagem em mito — nem
apagar seus atos.
Quem foi
Carlos Marighella?
Carlos Marighella nasceu em 5 de dezembro de 1911, em Salvador, Bahia,
filho de Augusto Marighella e Maria Rita do Nascimento Marighella. Era
descendente de italiano pelo lado paterno e de uma mulher negra descendente de
africanos escravizados pelo lado materno.
Desde jovem demonstrou interesse por política, literatura e poesia.
Estudou Engenharia Civil na Escola Politécnica da Bahia, mas não concluiu o
curso. Ainda muito jovem, aproximou-se do movimento comunista e passou a atuar
politicamente.
Sua primeira prisão ocorreu em 1932, quando tinha apenas 20 anos.
Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, voltou a ser perseguido e preso.
Segundo os registros históricos, passou anos encarcerado e sofreu violência e
tortura durante suas detenções.
O militante comunista
Marighella ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e tornou-se
um de seus principais dirigentes.
Após a redemocratização de 1945, foi eleito deputado federal
constituinte pela Bahia pelo PCB. Entretanto, a legalidade do partido duraria
pouco. Em 1947, o registro do PCB foi cancelado e, em 1948, os mandatos dos
parlamentares comunistas foram cassados.
Marighella voltou então à clandestinidade.
Durante as décadas seguintes, manteve intensa atividade política. Em
1953 e 1954, esteve na China a convite do PCB, em uma viagem destinada a
conhecer a experiência da Revolução Chinesa.
1964: o golpe
militar muda definitivamente sua trajetória
O golpe de 31 de março/1º de abril de 1964 marcou uma nova fase.
Em maio daquele ano, Marighella foi localizado por agentes do DOPS
dentro de um cinema no Rio de Janeiro. Foi baleado e preso.
Libertado posteriormente por decisão judicial, passou a defender uma
oposição cada vez mais radical ao regime.
As divergências com a direção do PCB se aprofundaram. Marighella
defendia uma estratégia de enfrentamento que a direção partidária não aceitava.
Em 1967, foi expulso do PCB.
No ano seguinte, ajudou a organizar a Ação Libertadora Nacional (ALN),
uma das principais organizações da luta armada contra a ditadura brasileira.
A ALN e a
luta armada
A partir de 1968, a trajetória de Marighella entrou definitivamente no
terreno da guerrilha urbana.
A ALN realizou ações para obtenção de recursos, incluindo assaltos a
bancos e outras operações armadas. O grupo também participou de ações de grande
repercussão internacional.
Uma das mais conhecidas aconteceu em setembro de 1969, quando
integrantes da ALN, em conjunto com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro
(MR-8), sequestraram o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke
Elbrick.
O objetivo era pressionar o governo pela libertação de presos políticos.
Ao final da operação, 15 presos políticos foram libertados e enviados para o
México.
O
"Minimanual do Guerrilheiro Urbano"
Marighella também se tornou conhecido internacionalmente por seus
escritos sobre guerrilha.
Seu "Minimanual do Guerrilheiro Urbano", produzido em 1969,
circulou clandestinamente e acabou traduzido para diferentes idiomas. O texto
apresentava princípios e métodos de atuação da guerrilha urbana.
A obra tornou Marighella uma referência internacional para movimentos
revolucionários, mas também fez dele um dos principais alvos dos órgãos de
segurança brasileiros.
As cápsulas de cianureto
É aqui que surge uma das histórias mais conhecidas sobre seus últimos
meses.
Documentos do Centro de Informações do Exército (CIE) registraram que
Marighella carregava consigo duas cápsulas de uma substância posteriormente
identificada como cianureto. O próprio acervo do Ministério Público Federal
reproduz essa informação a partir do Relatório Especial de Informações nº 9/69.
A explicação histórica mais aceita é que Marighella carregava o veneno
como recurso extremo para evitar ser capturado vivo e submetido novamente à
prisão e à tortura.
Isso fazia sentido dentro da experiência que havia acumulado em décadas
de perseguição política e encarceramento.
Mas há uma distinção importante: os documentos comprovam a existência
das cápsulas; a intenção específica de utilizá-las naquela noite é reconstruída
a partir de depoimentos, documentos e pesquisas posteriores.
4 DE NOVEMBRO
DE 1969: A EMBOSCADA
Na noite de 4 de novembro de 1969, Marighella dirigiu-se à Alameda Casa
Branca, em São Paulo.
Os órgãos de repressão haviam preparado uma operação para capturá-lo.
Informações obtidas durante a repressão aos seus colaboradores
permitiram localizar o ponto de encontro.
Marighella entrou em um Fusca onde estavam os frades dominicanos Ivo e
Fernando.
A operação policial começou imediatamente.
Marighella foi atingido por vários disparos e morreu aos 57 anos.
Durante muito tempo, a versão oficial sustentou que ele havia morrido em
um tiroteio com agentes do DOPS.
Mas essa versão passou a ser contestada por documentos, perícias e
investigações posteriores.
A
documentação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
registrou que Marighella foi atingido por um disparo na aorta à queima-roupa e
apontou inconsistências na versão oficial apresentada pelos órgãos de
segurança.
O Arquivo Nacional, ao disponibilizar documentos do período, também
registra a conclusão de que Marighella foi morto depois de ser dominado, e que
seu corpo teria sido colocado dentro do veículo para sustentar a versão de que
havia sido abatido durante uma reação armada.
A documentação posteriormente analisada também indicou que Marighella
estava desarmado no momento em que foi morto, embora um revólver tenha sido
posteriormente associado aos seus pertences. O conjunto documental sobre o
episódio permanece fundamental para compreender as circunstâncias de sua morte.
O Estado brasileiro reconheceu
a perseguição política
A morte de Marighella não encerrou sua história.
Décadas depois, documentos oficiais e trabalhos da Comissão de Mortos e
Desaparecidos contribuíram para revisar a narrativa construída pelos órgãos de
repressão durante a ditadura.
Em 1996, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente a responsabilidade
pela morte de Marighella.
Em 2012, ele recebeu anistia política post mortem.
UM PERSONAGEM
QUE NÃO CABE EM UMA FRASE
Carlos Marighella foi, ao longo de sua vida:
militante comunista;
deputado federal constituinte;
escritor e poeta;
preso político durante o Estado
Novo;
opositor da ditadura militar;
dirigente da luta armada;
fundador e principal líder da
ALN;
autor de textos sobre guerrilha
urbana;
personagem central de um dos
episódios mais emblemáticos da repressão política brasileira.
Sua história também revela as profundas divisões existentes dentro da
própria esquerda brasileira durante a ditadura: enquanto setores do PCB
defendiam a atuação política sem recorrer à luta armada, Marighella concluiu
que a resistência deveria assumir uma dimensão militar.
Essa escolha teve consequências graves e levou a ALN a praticar ações
armadas, incluindo assaltos e sequestros políticos.
Por isso, estudar Marighella exige mais do que transformá-lo em herói ou
vilão.
É necessário compreender o homem, o militante, o deputado, o escritor, o
guerrilheiro e o contexto histórico que o levou de uma juventude comunista na
Bahia à clandestinidade e à luta armada contra uma ditadura.
Carlos
Marighella morreu em 4 de novembro de 1969. Mas o debate sobre sua vida
permanece.
Sua trajetória continua provocando uma pergunta fundamental para quem
estuda a história do Brasil:
O que acontece com uma sociedade quando a disputa política deixa de ser
resolvida pelas instituições e passa a ser travada pela força?