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07/03/2026

MISOGINIA E FEMINICÍDIO

 "Onde começa a misoginia?"


Não é no tapa. Não é no grito. Não é na manchete que anuncia mais um corpo de uma mulher morta.
Começa muito antes — no detalhe que parece inofensivo, naquela frase jogada “de brincadeira”, naquela opinião fantasiada de humor, naquela crítica ao jeito de uma mulher existir no mundo. Misoginia nasce no sussurro antes de virar grito. No riso coletivo antes de virar ameaça. No deboche antes de virar covardia.
Ela começa ali, na desvalorização diária.
Quando dizem que mulher “exagera”, que “dramatiza”, que “não sabe se controlar”, que “pede atenção”.
Começa no: “mulher dirige mal”, “mulher não aguenta pressão”, “mulher tem que se dar ao respeito”, “mulher difícil merece ser domada”.
Começa quando o corpo da mulher vira argumento, quando seu desejo vira pecado, quando sua opinião vira capricho.
A misoginia se infiltra como mofo emocional: discreta, sorrateira, mas corrosiva. Até que um dia toma tudo.
E aí a gente finge que ficou surpresa quando ela explode.
Mas não há explosão sem acúmulo.
O feminicídio é o capítulo final de uma história escrita em capítulos pequenos que a sociedade chama de “normal”.
É o desfecho estatístico de uma cultura que ensina homens a acreditarem que têm direito sobre o corpo, sobre a vida e sobre o silêncio das mulheres.
É a consequência lógica — e criminosa — de um condicionamento emocional que diz que mulher deve tolerar, entender, ceder.
E que homem, coitado, só perdeu a cabeça.
Só que ninguém perde o que nunca tentou controlar.
A psicanálise explica: onde não há elaboração, há repetição.
E onde há repetição sem consciência, há violência.
O sujeito que cresce ouvindo que mulher vale menos internaliza essa lógica no inconsciente.
E reproduz.
E mata — emocionalmente, simbolicamente ou literalmente. A filósofa dentro de mim não consegue deixar de observar que toda estrutura de opressão precisa de dois pilares:
o que fala e o que replica.
Nenhum discurso de ódio se sustenta sozinho.
Toda misoginia que se alastra precisa de plateia, de riso, de compartilhamento, de curtida, de seguidor.
Quem consome, aplaude ou replica o ódio à mulher — seja influencer vendendo machismo gourmet, seja seguidor rindo do conteúdo e repostando — está alimentando a máquina que mata mulheres todos os dias no Brasil.
Sim: quem replica também é cúmplice.
Não puxou o gatilho, mas lubrificou.
Não enforcou, mas apertou mais um nó.
Não deu o soco, mas ajudou a construir o contexto emocional que justifica o soco.
Influencia a cultura. Alimenta a narrativa. Normaliza a violência.
E no final, o resultado é sempre o mesmo: o corpo da mulher no chão.
Talvez a pergunta certa não seja “onde começa a misoginia?”, mas “por que continuamos fingindo que não vemos quando ela começa?”.
Porque ela grita todos os dias.
Na timeline. No grupo da família. Nas piadas velhas recicladas em vídeo viral.
E cada risada é mais um tijolo na construção do feminicídio.
A misoginia não é um acidente. É um projeto.
E todo projeto precisa de gente trabalhando nele.
Os influenciadores do ódio são os arquitetos.
Os replicadores, os pedreiros.
E o resultado final é um país onde mulheres morrem por serem mulheres.
A verdade nua, crua e ácida é essa:
O feminicídio não começa com a violência.
Ele começa com a autorização social para que a violência exista.
E essa autorização nasce nas frases mais simples, mais bobas, mais “comuns”.
Por isso eu digo: cada palavra importa.
Cada piada importa.
Cada compartilhamento importa.
Porque, no fim, tudo isso vira estatística.
E estatística, nesse país, tem nome, rosto, história e sangue de mulher.

Aurora Zanco (Escritora)
Vida de Mulher

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