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28/02/2026

FAUNA URBANA

 Eles cruzam o quintal ao anoitecer, dormem sob a varanda e escavam o jardim sem que ninguém perceba. A maioria das pessoas acha que a fauna silvestre vive em florestas e parques distantes. Na prática, vinte mamíferos silvestres habitam a menos de quinhentos metros da maioria das casas brasileiras — e alguns provavelmente dormem sob a sua calçada agora.


Gambá-de-orelha-preta (Didelphis marsupialis) aparece toda noite nos telhados e quintais urbanos; único marsupial do Brasil que vive dentro das cidades; finge-se de morto quando ameaçado mas permanece completamente consciente durante todo esse tempo • Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) menor que o primo, pelagem cinza-clara com orelhas totalmente brancas, remove carrapatos ao se lamber com as patas e reduz a população deles no quintal • Graxaim-do-mato (Cerdocyon thous) onívoro oportunista que come desde frutos e caranguejo até restos orgânicos; instala-se em áreas verdes urbanas e percorre até 10 quilômetros por noite • Mão-pelada (Procyon cancrivorus) usa as patas dianteiras quase como mãos para palpar e examinar cada alimento antes de comer; frequenta margens de córregos em bairros e parques municipais • Caxinguelê (Guerlinguetus brasiliensis) enterra sementes de jerivá, ingá e araçá em pontos distribuídos pelo quintal e esquece metade delas, plantando árvores sem saber • Tatu-galinha (Dasypus novemcinctus) escava até cinco tocas diferentes na área de uso e dá à luz sempre quádruplos geneticamente idênticos; seu buraco no jardim indica solo fértil com muitos invertebrados • Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) maior roedor do mundo com até 80 quilos; forma grupos estáveis em parques e margens de rios urbanos e raramente abandona o território quando se sente segura • Preá (Cavia aperea) ancestral silvestre da cobaia doméstica; vive em gramados, hortas e bordas de jardim, ativa ao amanhecer e ao entardecer, raramente vista apesar de muito presente • Tapiti (Sylvilagus brasiliensis) não escava tocas; descansa em escavações rasas no chão chamadas formas, seus filhotes nascem cegos e sem pelo e ficam escondidos na serapilheira por semanas • Ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis) trinta mil espinhos e cauda preênsil; sobe em árvores frutíferas de quintais à noite e desce antes do amanhecer sem deixar rastros visíveis • Catita (Monodelphis domestica) quinze gramas, sem bolsa marsupial, os filhotes se prendem às tetas expostas no ventre da mãe; come o próprio peso em insetos e aranhas todo dia ou começa a perder energia em horas • Morcego-frugívoro (Artibeus lituratus) poliniza e dispersa sementes de mais de cem espécies de plantas nativas; habita forros de casas e ocos de árvores e pode ser o principal dispersor de sementes em bairros arborizados • Morcego-de-cauda-livre (Tadarida brasiliensis) forma colônias de milhares de indivíduos num único forro de telha; captura mosquitos e mariposas em voo e consome sua massa corporal em insetos a cada noite • Lontra (Lontra longicaudis) vive em córregos urbanos aparentemente degradados; a sua presença indica que ainda existe peixe e qualidade mínima de água no riacho que passa pelo seu bairro • Furão (Galictis cuja) menor carnívoro do cerrado com menos de 30 centímetros de corpo; entra diretamente nas tocas de outros animais para caçar e atravessa quintais e galpões em busca de roedores • Rato-d'água (Nectomys squamipes) semelhante à ratazana mas semiaquático; nada em córregos de bairro, tem patas traseiras levemente palmadas e habita margens úmidas em jardins próximos a água • Ratão-do-banhado (Myocastor coypus) nativo da América do Sul com 5 a 8 quilos; escava margens de rios e lagos urbanos criando galerias que podem desestabilizar taludes; frequente em parques municipais com espelhos d'água • Jaguarundi (Puma yagouaroundi) felino do tamanho de um gato doméstico grande, pelagem uniforme cinza ou ferrugínea sem manchas; circula silenciosamente em bairros próximos a fragmentos de mata ou córregos • Rato-de-espinho (Proechimys roberti) pelos do dorso rígidos como espinhos finos, olhos grandes e escuros; vive sob entulhos, raízes e assoalhos de casas próximas a vegetação nativa • Cutia (Dasyprocta leporina) enterra castanhas, sementes de jatobá e palmeiras com precisão milimétrica em pontos que recupera meses depois pela memória espacial; é o único animal capaz de abrir a castanha-do-pará sem ferramentas.

A distância entre um mamífero silvestre e o seu travesseiro se mede, muitas vezes, em metros — não em quilômetros. 🌿🦡

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