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08/02/2026

RACISMO

 Dizem que os imigrantes europeus chegaram aqui sem nada. Roupa do corpo, fome, trabalho duro. Verdade. Só que essa verdade vem com um rodapé que muita gente faz questão de arrancar.


Eles não chegaram “sem nada” para um Estado neutro. Chegaram para um Estado com plano. Teve política pública, teve subsídio, teve incentivo, teve terra, teve crédito, teve porta aberta. Teve, sobretudo, acesso. E acesso é a moeda invisível que decide quem vira “pioneiro” e quem vira “problema social”.

Agora compare com o outro lado da foto. Ex-escravizados saíram da abolição largados no acostamento da história. Sem terra. Sem escola. Sem indenização. Sem proteção. Com a polícia como recepcionista e o preconceito como lei não escrita - muitas vezes escrita, sim. A República nasceu devendo e escolheu não pagar. E depois ainda pediu “mérito”.

Aí vem o mantra: mas também existia branco pobre. Existia. Existe. E deve ser atendido com políticas sociais fortes, sempre. Só que pobreza não apaga racismo. Racismo atravessa a pobreza e acrescenta uma camada de muro, humilhação e desvantagem que não aparece no discurso bonito do “somos todos iguais”.

O debate sobre cotas não é um concurso de sofrimento. É uma discussão sobre o que o Estado fez e sobre o que ele se recusou a fazer. Um grupo recebeu escada. O outro recebeu empurrão.

E quando alguém grita “mérito”, sem encarar essa largada viciada, não está defendendo justiça. Está defendendo conforto.

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