A ideia de que a família patriarcal - homem provedor, mulher submissa à
condição de adjutora e resumida às crias e lidas do lar seria um “projeto
divino” não resiste a um exame minimamente sério da história da humanidade.
Isso não é uma provocação ideológica gratuita da minha parte, jamais, isso é o
que mostram, de forma consistente, a antropologia, a arqueologia e a própria
história das religiões.
O que existe, de fato, não é um modelo padronizado e eterno criado por
Deus, mas uma construção histórica moldada pra atender interesses muito
concretos tipo, controle de riqueza, de herança e, sobretudo, do corpo das
mulheres.
Durante a maior parte da existência humana, em sociedades de
caçadores-coletores, essa divisão rígida simplesmente não existia. A sobrevivência
era ~coletiva~ não havia acúmulo relevante de bens, e isso muda tudo. Sem
propriedade consolidada, não há obsessão com herança e sem herança, não há
necessidade de vigiar a reprodução. Mulheres participavam da produção, da vida
social e da organização do grupo. Isso talvez não significasse igualdade plena,
mas com certeza desmonta completamente a narrativa de que sempre houve uma
hierarquia fixa, natural e universal entre homens e mulheres, sendo o homem
"o cabeça", designado por alguma força mística.
A ruptura vem com a chamada revolução agrícola. Quando surge o
excedente, surge também a propriedade. Terra, animais, recursos passam a ser
acumulados. Com isso, nasce a disputa. É nesse ponto que a análise da
historiadora Gerda Lerner é decisiva: o patriarcado começa a se estruturar
quando o controle sobre a reprodução feminina se torna central para garantir a
transmissão de riqueza. A pergunta deixa de ser “como sobreviver?” e passa a
ser “quem é dono? Quem herda?”...
E então, pra garantir herdeiros “legítimos”, o corpo da mulher passa a
ser vigiado. A fidelidade feminina deixa de ser um valor moral subvalorizado e
vira uma exigência econômica absoluta. O casamento se transforma num contrato.
A sexualidade feminina daí é cercada, regulada, punida. A maternidade deixa de
ser apenas uma dimensão da vida e passa a ser a peça-chave na engrenagem
social. O patriarcado, portanto, não é natural...
Não mesmo!
Ele é fabricado pela necessidade de organizar a propriedade.
Isso é um conhecimento básico, deveria ser ensinado nas escolas, deveria
ser de fácil acesso...
As pessoas deveriam ter o direito de entender esse processo que gerou a
nossa realidade, pra evitar uma série de equívocos extremamente perigosos...
Mas, pelo contrário!
E assim, com a grande maioria no total escuro, o velho, podre, caquético
e patético mundo em que vivemos segue vivo e brutal como sempre.
Entendamos, nenhum sistema de dominação se sustenta apenas na força. Ele
precisa parecer legítimo.
Precisa parecer digno e honrado, pra assim ser objeto de desejo, de
sonho...
Pra ser visto como "sentido pra vida".
É aqui que entra a religião. Não como origem do patriarcado, mas como
seu principal instrumento de naturalização. Como aponta a filósofa e teóloga
Mary Daly, quando a autoridade divina é representada como masculina, a
hierarquia social ganha uma justificativa sagrada. O que antes era uma
imposição histórica passa a ser apresentado como vontade de Deus...
Textos religiosos antigos são reveladores, neles há uma insistência
quase obsessiva em regular o comportamento feminino: tudo é sobre preservar
virgindade, sobre obediência, sobre silêncio, tudo finda em submissão. Não é à
toa! É o reflexo de uma ordem social que precisava garantir controle sobre a
reprodução e encontrou na religião uma forma de blindar essa necessidade.
Quando uma regra vira mandamento divino, ela deixa de ser questionável,
mata o raciocínio. A dominação é moral.
O que se vende como “família criada por Deus” é, na prática, um arranjo
histórico sacralizado para se tornar incontestável. A religião funciona como
uma tecnologia de legitimação pois ela transforma relações de poder
político-econômicas em verdades eternas. E isso não é exclusivo de uma tradição
específica, acontece sempre que estruturas religiosas se articulam com o poder
político.
Com a formação dos Estados, esse processo se intensifica. Leis, costumes
e doutrina religiosa passam a operar juntos. O controle sobre o corpo feminino
deixa de ser apenas cultural e passa a ser institucional. A mulher é reduzida à
função reprodutiva e doméstica ~e não por essência~ mas por funcionalidade.
Como evidencia a filósofa Silvia Federici, especialmente no contexto do
surgimento do capitalismo, esse modelo é aprofundado pois o trabalho doméstico
feminino passa a ser essencial para o sistema, só que invisibilizado e não
remunerado.
Cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, sustentar emocionalmente a família,
tudo isso é tratado então como “vocação” ou “amor”, quando na verdade é
trabalho indispensável pra reprodução/manutenção da força de trabalho. Explico:
o lar não é apenas espaço privado ele é uma engrenagem econômica central. É
nele que são produzidos, criados, treinados os trabalhadores e trabalhadoras
que darão sustentação ao sistema. A mulher “do lar” não é um ideal espiritual,
é uma peça funcional de um sistema que depende do seu trabalho. E pior, do seu
trabalho gratuito.
Quando essa análise é aprofundada pela antropóloga Rita Segato, o quadro
fica ainda mais explícito porque pra ela, a família patriarcal não é só uma
organização doméstica, ela é também uma escola de hierarquia. É dentro dela que
se aprende quem manda e quem obedece. É ali que a desigualdade se naturaliza.
E, no contexto latino-americano, isso se agrava com a colonização. Aqui, o
patriarcado europeu, mais rígido e violento, foi imposto sobre outras formas de
organização social, com apoio direto das instituições religiosas.
Ou seja, o modelo que hoje é defendido como “natural” e “divino” é, na
verdade, resultado de processos históricos específicos, econômicos, políticos e
coloniais.
O que se chama de “ordem de Deus” é, na prática, uma construção
histórica cuidadosamente moldada, reforçada e protegida para garantir controle
social. Não é modelo espiritual, é organização de poder. Não é essência, é
estratégia.
E detalhe: reconhecer isso não é um ataque à espiritualidade de ninguém.
O meu intuito é apenas esclarecer pontos sobre religião e política cuja
ignorância tem nos feito muito mal, coletivamente.
É apenas sobre recusar a manipulação entre fé e estrutura de dominação.
Porque quando uma forma histórica de controle é apresentada como vontade
divina, o que está em jogo não é nada sobre Deus, é poder humano se colocando
como incontestável.
Aí não tem como dar certo né?
Não tem.
E não deu.
Gi Stadnicki
Indicações de livros sobre esse
assunto:
A Criação do Patriarcado - Gerda
Lerner
Além de Deus Pai - Mary Daly
Ginecologia (Gyn/Ecology) - Mary Daly
Calibã e a Bruxa - Silvia Federici
O Ponto Zero da Revolução - Silvia
Federici
A Guerra Contra as Mulheres - Rita
Segato
As Estruturas Elementares da
Violência - Rita Segato
A Origem da Família, da Propriedade
Privada e do Estado - Friedrich Engels
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