“O pensamento mágico faz parte da infância, perfaz uma etapa normal de seu desenvolvimento, e reside na crença de que os próprios pensamentos e ações exercem influência sobre o mundo exterior, independentemente da relação entre causa e efeito. A criança cria suas próprias explicações para os fenômenos ao seu redor, para se proteger emocionalmente. Tal pensamento mágico, no entanto, deve diminuir gradualmente e, a partir dos sete anos de idade, o pensamento lógico se desenvolve".
O que se percebe, no entanto, no atual desenvolvimento da sociedade, é uma grande massa embalada pelo pensamento mágico, totalmente destituída de lógica ou racionalidade. O que se pode concluir? Que a humanidade está tão temerosa e tão pouco preparada mentalmente para enfrentar a velocidade de um mundo em desenvolvimento, que passou a se refugiar em pensamentos que pensávamos já terem sido resolvidos e ultrapassados pela atual conjuntura social. Agora, percebemos que não estavam.
Numa sociedade que tornou a felicidade obrigatória, que exibe seus sorrisos e aventuras em fotos e vídeos editados, acessíveis a todos, eis que a humanidade se entregou totalmente ao pensamento mágico, dentro do qual navega, xinga, repete bordões, desmerece séculos de ciência, despreza o conhecimento, nega-se a raciocinar, ignora a história, refestela-se em ideações mágicas e soluções milagrosas sem qualquer respaldo lógico, apenas para sentir o ‘prazer de parecer’, pois que o ‘parecer’ se tornou superior ao ‘ser’.
Observe os heróis que a atual sociedade elege para governar e deliberar as leis que regerão sua vida: cantores, esportistas, comediantes, políticos vazios de projetos e cheios de discursos, milionários que nem imaginam o que é passar fome ou sentir qualquer necessidade, narcisistas que se acham acima da lógica e da sabedoria; mas, está tudo bem se eles prometerem o paraíso. Como farão esse paraíso chegar até a população? Ninguém sabe dizer, pois que o discurso, mesmo vazio, tornou-se mais importante do que a ação.
As entrevistas mostram pessoas aparvalhadas, ignorantes, narcisistas fantasiados sacudindo bandeiras e falando frases desconexas e sem lógica, embaladas pela idolatria, sob o pensamento mágico da primeira infância, estampando no rosto o sorriso vazio da alienação. Deixaram de pensar, de questionar, de ouvir com atenção, de pensar no futuro através de projetos reais, pois ‘repetir frases’ se tornou mais importante do que qualquer lei que lhes possa beneficiar. Mal sabem diferenciar o bem e o mal em uma sociedade; pedem para serem invadidas, para seus filhos serem mortos por líderes estrangeiros, para os filhos de seus vizinhos serem torturados, para serem pisadas pela ditadura, simplesmente porque não conseguem mais ‘alcançar’ o significado de ‘questionar’.
Ibsen, em sua obra ‘O Pato Selvagem’, questiona a importância da mentira vital ao homem comum, e defende que, se tirarmos a mentira vital ao homem comum, tiramos-lhe ao mesmo tempo a felicidade. A busca da felicidade tem encontrado seu elemento não na lógica ou realidade palpável, mas sim na mentira que alimenta o narcisismo e faz um homem comum e inculto ‘parecer’ conhecedor, ‘parecer’ um mestre do universo. Assim, para a grande maioria, a solução mágica, o simulacro, o ‘parecer’, o ‘faz de conta’, a vida após a morte, o sonho grandioso do salvador da Pátria, a palavra gritada aos quatro ventos, a bandeira enrolada no corpo, as citações da Bíblia, ‘os velhos tempos antigos’ são, todos eles, elementos que compõem a falange que redimirá todos os pecados e transformará a sociedade, num passe de mágica, no ‘Reino da Felicidade’. E não há lógica alguma que possa ressuscitar essas pessoas que estão socialmente mortas, pois que a felicidade elas já alcançaram. Mesmo que tal felicidade tenha a fragilidade da primeira infância e morra na primeira enxurrada do destino.” (Sônia Wendt Nabarro) #SoniaWendtNabarro
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