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31/07/2026

ODE AO CÃO

 MEU CÃO MORREU 


Meu cão morreu.
Enterrei-o no jardim
junto a uma velha máquina oxidada.  

Ali, nem mais abaixo,
nem mais acima,
algum dia se juntará a mim.  Agora ele já se foi com seu pelo,
sua má educação, seu nariz frio.  

E eu, materialista que não acredita
no celeste céu prometido
para nenhum humano,
para este cão ou para todo cão,
acredito no céu, sim, acredito num céu
onde eu não entrarei, mas ele me espera
abanando sua cauda de leque
para que eu, ao chegar, tenha amigos.  

Ai, não direi a tristeza na terra
de não tê-lo mais como companheiro,
que para mim jamais foi um servo.  

Teve para mim a amizade de um ouriço
que conservava sua soberania,
a amizade de uma estrela independente
sem mais intimidade que a precisa,
sem exageros:  não trepava sobre minhas roupas
enchendo-me de pelos ou sarna,
não se esfregava contra meu joelho
como outros cães obcecados sexuais.  

Não, meu cão me olhava
dando-me a atenção que preciso,
a atenção necessária
para fazer compreender a um vaidoso
que, sendo cão, ele
com aqueles olhos mais puros que os meus,
perdia tempo, mas me olhava
com o olhar que me reservou
toda sua doce, peluda vida,
sua silenciosa vida,
perto de mim, sem me incomodar nunca
e sem me pedir nada.  

Ai, quantas vezes quis ter cauda
andando junto a ele pelas margens
do mar, no inverno de Isla Negra,
na grande solidão: acima o ar
atravessado de pássaros glaciais,
e meu cão saltando, hirsuto, cheio
de voltagem marinha em movimento:  meu cão vagabundo e olfatório
empunhando sua cauda dourada
frente a frente ao Oceano e sua espuma.  

Alegre, alegre, alegre
como os cães sabem ser felizes,
sem nada mais, com o absolutismo
da natureza descarada.  

Não há adeus ao meu cão que morreu.

E não há nem houve mentira entre nós.  

Já se foi e eu o enterrei, e isso era tudo.

..............

Poema de Pablo Neruda (1904-1973), na foto com Calbuco. 

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O chileno Neruda tinha legítima afeição pelos animais. Escreveu muitos poemas para eles.  

Oda al perro: 

Escrito na fase madura de Neruda, reflete sua vida em Isla Negra com vários cães (como Calbuco). O poema explora o diálogo silencioso entre homem e animal, a incompreensão humana perante a lealdade canina e a gratidão pela companhia inabalável na solidão.

Oda al gato: 

Publicado em *Navegaciones y regresos (1959), surge na etapa das Odes Elementares, onde Neruda valoriza o cotidiano e a natureza simples. O gato simboliza perfeição instintiva e autonomia, contrastando com aspirações humanas frustradas.

Algumas bestias (Canto General, 1950): 

Parte da seção "La lámpara en la tierra", contextualiza a exuberância da fauna americana pré-colombiana. Neruda usa animais da selva para evocar força primal, mistério e conexão com a terra ancestral chilena, reforçando temas ecológicos e anti-imperialistas da obra.

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