Henfil é daqueles nomes que parecem não caber dentro de uma só vida. Sempre que meus leitores me pedem para contar a história dele, eu me pego rindo sozinho, não porque seja leve, mas porque é impossível terminar. Este homem aqui tem história para caramba. E aos que não gostam de texto longo, eu só posso dizer que sinto muito. Enquanto você insiste em viver a superfície das coisas, nada profundo se fixa na sua memória. A superficialidade não preserva ninguém, nem nada. E Henfil não é homem para caber em resumo de três linhas. Quem quiser ficar só no raso, fique. Eu vou sempre preferir contar histórias que mergulham.
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03/12/2025
HENFIL
Henrique de Souza Filho nasceu em 1944, em Minas Gerais, dentro de uma família onde a inteligência parecia brotar como mato e o humor funcionava como sobrevivência. Ele, o irmão Betinho e o irmão Chico Mário carregavam uma herança genética rara e difícil. Eram hemofílicos. E é importante explicar isso sem rodeios, porque muita gente não sabe o que essa palavra carrega. Hemofilia é uma doença hereditária que impede o sangue de coagular de forma adequada. Aquilo que, em pessoas saudáveis, estanca sozinho em poucos segundos, numa pessoa hemofílica pode se transformar em um sangramento prolongado e perigoso. Um corte mínimo pode virar problema. Uma batida na perna pode gerar sangramento interno. Uma pancada na cabeça pode ser fatal. É viver num corpo que não estanca, num corpo que não segura as próprias bordas, num corpo que exige vigilância constante. Crescer assim significa aprender cedo que o organismo é frágil e que o mundo é cheio de cantos que machucam. Talvez por isso Henfil tenha vivido com essa intensidade inquieta, como se cada gesto precisasse importar, como se a vida fosse curta demais para desperdício.
Quando começou a desenhar profissionalmente, encontrou uma linguagem que parecia ter sido inventada para ele. Seu traço era rápido, nervoso, quase impulsivo, mas carregava uma inteligência moral aguda. Foi assim que chegou ao Pasquim, jornal satírico que virou um dos centros de resistência cultural durante a ditadura militar. Henfil não fazia humor para passar o tempo, fazia humor para desarmar mentiras. Seu trabalho era uma arma. Seus personagens, como o Fradim Baixim, o Cumprido, o Zeferino e a Graúna, não eram apenas figuras engraçadas. Eram críticas políticas em forma de caricatura, pequenas lâminas de lucidez cortando a arrogância dos generais, a hipocrisia da censura, os abusos do regime.
E ironicamente, hoje, esses mesmos personagens que um dia enfrentaram o autoritarismo acabaram virando o terror de qualquer criança no ensino fundamental ou médio que tenta compreender o contexto da tirinha na prova de português. Mas o problema não é que viraram material pedagógico. Ainda bem, aliás, que pelo menos ali eles sobrevivem. O verdadeiro problema é que ninguém explica o que eles realmente foram. A escola utiliza, mas raramente conta o risco envolvido, a coragem necessária, o peso político desses quadrinhos. Os estudantes decoram a resposta certa, mas não descobrem o país que existe por trás daqueles balõezinhos. A educação falha quando entrega só a superfície, quando apresenta a ferramenta sem revelar o que ela construiu. E no Brasil de hoje, qualquer tentativa de ensinar o peso histórico desses desenhos seria recebida por muita gente como doutrinação, porque há quem confunda história com ideologia, como se o passado tivesse partido político. E assim, para evitar barulho, para evitar ataque, para evitar o incômodo, o sistema educacional prefere reduzir Henfil a uma tirinha analisável em vez de apresentá-lo como o artista que afrontou uma ditadura inteira. E isso diz muito sobre a incapacidade do país de honrar seus próprios criadores.
Henfil viveu sob censura, perseguição e vigilância. Desenhos vetados, telefonemas de advertência, textos interrompidos, olhares desconfiados. Muitos dos colegas do Pasquim foram presos em 1970 e levados para o DOI-CODI, onde enfrentaram tortura e interrogatórios. Henfil só não estava entre eles porque naquele ano estava nos Estados Unidos, participando de um intercâmbio cultural. Se estivesse no Brasil, teria entrado na mira da repressão como todos os outros. Era só questão de geografia. Ele era exatamente o tipo de artista que o regime queria calar.
A volta ao Brasil significou conviver com a tesoura implacável da censura. Quadros eram devolvidos com carimbos de veto. Piadas eram riscadas. Palavras eram arrancadas. Mas Henfil continuava firme, como se o ato de insistir fosse parte de sua missão. E era, de certo modo. Ele carregava consigo não só sua própria voz, mas também a do irmão Betinho, que teve seus direitos políticos cassados e foi obrigado ao exílio. Henfil falava por si e falava por quem não podia.
E foi nesse período, entre o peso da repressão e a esperança tímida de abertura política, que nasceu um dos capítulos mais bonitos da trajetória dele: as Cartas ao Irmão do Henfil. Ele escrevia essas cartas para Tancredo Neves, tratando-o como irmão não por intimidade real, mas por intimidade simbólica. Era como chamar Tancredo para perto pela força da linguagem, pela força do afeto mineiro, pela força da esperança. As cartas misturavam humor, apelo moral, ironia, carinho e cobrança. Eram um lembrete de que o país precisava reencontrar o caminho democrático e que Tancredo, figura central naquele momento, tinha um papel essencial nisso. As cartas viraram um fenômeno cultural porque Henfil transformou política em conversa de família. Transformou a ansiedade nacional em diálogo íntimo. Transformou a espera pela democracia em marca afetiva de um povo.
Enquanto isso, outra batalha era travada dentro do corpo. A hemofilia exigia transfusões frequentes de fatores de coagulação, especialmente o Fator VIII. E aqui começa a parte mais dolorosa e absurda de sua história. Na década de 1970 e início da de 1980, o Brasil não tinha bancos de sangue estruturados. A coleta era insuficiente, a fiscalização quase inexistente e, para suprir a demanda, o país importava hemoderivados dos Estados Unidos e da Europa. E esses hemoderivados eram produzidos a partir de misturas de milhares de amostras de sangue. Nos Estados Unidos, existia um mercado brutal no qual pessoas pobres vendiam sangue para sobreviver. Presos, usuários de drogas injetáveis, moradores de rua, gente sem acesso a exames médicos, sem acompanhamento, sem proteção alguma. Era a miséria alimentando a indústria do sangue.
E o mundo ainda não sabia, mas o HIV já circulava nessas populações. Não havia teste. Não havia rastreamento. Não havia sequer um nome para a doença. Bastava uma única amostra contaminada entrar no lote para contaminar tudo. E esses lotes eram exportados em massa, chegando ao Brasil como solução de saúde. Foi assim que milhares de hemofílicos no mundo receberam HIV sem jamais ter tido a menor chance de evitá-lo. Henfil, Betinho e Chico Mário estavam entre essas vítimas silenciosas da negligência internacional.
É importante dizer que tudo isso pertence a outro mundo. A tragédia dos hemoderivados contaminados aconteceu numa época em que não existiam testes para HIV, nem protocolos de rastreamento, nem controle rigoroso de doadores. A medicina caminhava às cegas. Hoje não é mais assim. Os bancos de sangue seguem normas rígidas, cada doação passa por múltiplas etapas de testagem e qualquer contaminação é identificada e bloqueada antes de chegar a um paciente. A ciência corrigiu o que antes era falha, e essas mortes silenciosas deixaram de acontecer. Henfil viveu num tempo em que a ignorância global matou muita gente boa. Felizmente, esse capítulo não se repete mais.
Ainda assim, nos anos 1980 ele continuou produzindo, mesmo com o cansaço avançando. Participou ativamente da campanha pelas Diretas Já, escreveu as célebres cartas ao irmão, pressionou Tancredo Neves, usou o humor como ferramenta de esperança e de cobrança. Ele acreditava profundamente na democracia e acreditava mais ainda que o riso podia mover consciências. Mas o corpo já sabia que o tempo estava se esgotando.
O vírus avançava. A energia diminuía. O humor se mantinha, mas a saúde declinava. Henfil continuava escrevendo, desenhando, enfrentando o país, mas cada vez com mais peso nos ombros. Até que, em janeiro de 1988, aos 43 anos, Henfil morreu por complicações da AIDS. Sua morte foi um choque, um símbolo e uma ferida aberta. Não apenas porque perdemos um dos maiores cartunistas da história, mas porque sua morte expôs a tragédia dos hemoderivados contaminados e a negligência que colocou vidas inteiras em risco.
E mesmo depois de tudo isso, a verdade é que só arranhamos a superfície desse homem genial. Henfil foi um arauto da consciência brasileira, alguém que traduzia a alma contraditória deste país em desenho, ironia e lucidez. E antes que alguém apareça dizendo que ditadura não existiu, vale lembrar que não é porque você viveu uma época que você viu tudo dela. Ignorância não é testemunho. O mundo é maior do que a sua janela. Henfil enxergava o Brasil muito além das janelas que lhe deram. E eu voltarei a escrever sobre ele muitas vezes, porque uma vida como a dele não cabe em uma crônica só. E porque o Brasil ainda precisa aprender a honrar quem tentou salvá-lo de si mesmo.
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