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20/06/2026

HOMESCHOOLING E FAMÍLIA PATRIARCAL (RITA ALMEIDA)

 A defesa do ensino domiciliar (homeschooling) faz parte do pacote de pautas da extrema-direita, e ela não é periférica às demais pautas morais. Perspectivas políticas autoritárias dependem fundamentalmente do discurso da família patriarcal autoritária e a educação domiciliar é um instrumento que serve a esse discurso. Lembrando que, em se tratando de extrema-direita, fazer circular determinada narrativa é mais importante do que ela ser efetivada na prática.


Mas do que se trata a família patriarcal autoritária? 

Freud criou um mito para caracterizar o “primeiro pai” do patriarcado. Tratava-se de um tirano perverso que, por meio da força, mantinha a mulher e a prole sob seu domínio, a fim de satisfazer suas necessidades, inclusive as sexuais. 

No mito freudiano o processo civilizatório só foi possível pelo movimento de libertação de mulheres e filhos do jugo desse pai perverso. O pai primevo precisou ser morto pelos filhos para que a civilização se desenvolvesse e desse assassinato, nasce um pacto de irmandade, fundado na primeira lei: a lei de interdição do incesto, a partir da qual todos se comprometeram a nunca mais ocupar o lugar do pai perverso.

Se a estrutura da família patriarcal é autoritária podemos considerar que toda família pode reativar em seu seio o pai perverso, tirânico e gozador primordial, por isso, todo esforço civilizatório significa conseguir superar a família nuclear autoritária. A família é a estrutura que possibilita ao ser humano entrar mundo, mas, paradoxalmente, é a mesma que pode condená-lo à servidão, ao abuso ou mesmo à morte (real ou subjetiva). 

Vista sob a ótica freudiana, a família não é apenas um ninho seguro e amoroso que cuida e acolhe, mas também a fonte primeira de nossos traumas e sofrimentos. É por isso que a romantização da família é um erro. É ingênuo acreditar que ela seja boa em si. A melhor família é aquela que compreende seu componente perverso e que, por isso, se ocupa em lançar seus filhos para fora de si. A família é uma espécie de mal necessário, que precisa ser superada por cada um no seu esforço de maturidade. 

O pai sempre precisará "ser morto” por cada um e a cada vez, este foi o argumento freudiano ao retomar o Édipo para falar do nosso processo de subjetivação. Sendo assim, todo discurso que busca romantizar a família ou promover o resgate de um pai ideal – perfeito ou poderoso – segue o caminho contrário do movimento civilizatório, e facilita a perversão. Não por acaso os abusadores mais comuns de mulheres e crianças são os pais, padrastos, tios ou seus substitutos: padres, patrões, pastores, gurus e líderes em geral. 

A "defesa da família”, é uma das principais peças de propaganda, da extrema-direita, mas não é qualquer família que eles defendem. O que eles buscam salvar é a família ideal do patriarcado, a que busca reativar o pai perverso e seus subordinados: mãe/mulher e filhos/heteronormativos. Uma família, segundo eles, tão virtuosa que cabe a ela a tarefa de cuidar, inclusive, da escolarização e da educação sexual das crianças. Ou seja, um ninho de perversões.

Assim sendo, garantir que a escolarização de todas as crianças seja feita fora do núcleo familiar, não é apenas uma forma de democratizar o acesso ao ensino formal, é ainda mais básico: é proteção elementar contra a tendência familiar autoritária perversa, é civilizatório, é promotor de saúde mental e de segurança para nossas crianças. Além disso, serve de proteção contra estruturas de poder autoritárias e perversas tão propícias aos discursos de extrema-direita.

A lei interdição do incesto – que funda a civilização – diz basicamente o seguinte: as questões relativas à sexualidade devem ser vivenciadas e aprendidas fora do núcleo familiar. E se compreendemos que sexualidade não é apenas sexo, mas todo laço feito fora das relações incestuosas, compreendemos a importância da escola como lugar social para a criança. 

A família apresenta a criança ao mundo, o desejo dela nessa empreitada é importante e fundamental, mas é igualmente importante que tal criança seja endereçada para fora da mesma. Por outro lado, crianças capturadas por famílias perversas deve ser resgatadas das mesmas e a escola tem sido instrumento fundamental para promover tal resgate. 

Papai e mamãe amam suas crianças na mesma medida em que podem subjugá-las, massacrá-las, adoecê-las e até destruí-las. É da sua estrutura autoritária. 

Dito isso: lugar de criança é na escola. 

Rita Almeida
@ritacaalmeida

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