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10/06/2026

O TEMPO E O VENTO (ÉRICO VERÍSSIMO)

 O Tempo e o Vento e a masculinidade tóxica

Estava pensando nessa obra belíssima do Érico Veríssimo, e como o público em geral parece ter uma visão deturpada dos personagens. Eu e meu pai já conversamos sobre o Capitão Rodrigo, essa figura que é tida como herói e modelo de homem gaúcho, mas que na verdade tem pouquíssimos traços de herói. Meu pai assistiu à minissérie da Globo com Tarcísio Meira e Glória Pires, eu li O Continente para a escola, e foi uma leitura que me marcou muito. Ele disse que percebeu, na época, que o Capitão Rodrigo era na verdade um bandido, um mercenário. No livro, ele trai a esposa, é agressivo, joga com apostas, e tem toda aquela parte em que a filha deles falece enquanto ele está no bar jogando. Rodrigo era irresponsável, mulherengo e agressivo. Morreu por imprudência lutando numa revolta que a maior parte do estado não aderiu. Não é nem de longe um herói tradicional, apesar de ser corajoso e carismático.

O que me parece é que com o personagem dele, junto do Bolívar e do Licurgo, Veríssimo estava fazendo uma crítica à masculinidade tóxica do gaúcho, essa insistência de resolver tudo na bala e lavar a honra com sangue, que acaba por causar sofrimento, tragédias, traumas e, no caso do Rodrigo e do Bolívar, a morte precoce. O autor muitas vezes narra os pensamentos desses personagens, mostrando suas incoerências e hipocrisias escancaradamente. Li uma resenha certa vez que dizia que o Bolívar era "fraco", que não tinha a mesma energia e coragem do pai, por isso morreu jovem, enquanto Licurgo teria herdado esses valores. Discordo dessa análise, não acredito que o Bolívar fosse fraco, mas sim que ele começou a perceber o quanto ele estava caminhando para se tornar um homem violento e bruto, e foi isso que causou seu "surto" e culminou na sua morte no confronto com os Amaral.

Licurgo não é forte por ter seguido os passos do avô, ele é apenas mais um membro da família envolvido num conflito sangrento com os Amaral (que nem eram tão vilões assim). Ele participou da Revolução Federalista, ou Revolta da Degola, que foi o conflito mais sangrento ocorrido no RS. Contrariando as expectativas, os Terra-Cambará eram apoiadores do Júlio de Castilhos e do Floriano Peixoto. Ambos foram ditadores e tiranos, então eles não estavam lutando pela liberdade ou por democracia, e sim defendendo o autoritarismo. Isso custou a vida da sua filha recém-nascida e quase a da esposa também.

Os personagens fortes de O Tempo e o Vento sempre foram as mulheres: Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria. Quanto aos homens, Érico deixa claro quais têm um bom caráter: Pedro Terra, Juvenal e Florêncio. Inclusive, Pedro não gostava de Rodrigo pelo seu jeito "aventureiro". Érico Veríssimo foi um humanista, um defensor da democracia e profundo conhecedor da sociedade gaúcha. Infelizmente, a TV e o cinema romantizaram muito figuras como a do Capitão Rodrigo, perdendo o tom de crítica que era a intenção do autor.

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