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02/07/2026

O LEGADO DE JOÃO RODELLA

Maísa Neves

Durante muitos anos, eu lia sua coluna no jornal O Liberal como quem

abre uma janela para enxergar além da paisagem comum. Enquanto

muitos escreviam para agradar, João Rodella escrevia para despertar.

Suas palavras não faziam carinho; faziam perguntas. Não ofereciam conforto;

exigiam reflexão.

Toda semana, ao folhear o jornal, eu procurava sua coluna. Havia algo de

fascinante naquele homem que transformava os acontecimentos cotidianos

em retratos profundos da condição humana. Ele denunciava injustiças,

expunha contradições e revelava as pequenas mazelas escondidas sob o verniz

da normalidade. Sua escrita era firme, direta e, muitas vezes,

desconfortável. Talvez por isso fosse tão necessária.

Eu sonhava conhecê-lo um dia.

Em 2019, recebi um convite de Maria Lúcia, presidente do Espaço

Literário de Americana, para integrar o grupo. Aceitei com entusiasmo, sem

imaginar a surpresa que me aguardava.

No primeiro encontro, enquanto observava os participantes

conversando, vi um senhor de cabelos brancos, postura serena e olhar atento.

Não demorou para que alguém o apresentasse.

— Este é o João Rodella.

Por alguns segundos, fiquei sem reação. Ali estava o homem cujas

palavras eu havia acompanhado durante tantos anos. Não era mais apenas uma

assinatura no rodapé de uma coluna; era uma presença real, de carne e osso,

caminhando entre nós com a simplicidade dos verdadeiramente grandes.

Quando começou a falar, compreendi que sua literatura era apenas uma

extensão de sua própria personalidade. Havia lucidez em cada observação,

experiência em cada comentário e humanidade em cada silêncio. Aos 89 anos,

João carrega consigo algo peculiar: a capacidade rara de enxergar o

extraordinário escondido nas cenas mais comuns do cotidiano. Ele transforma

essas cenas em livro, em crônicas para o nosso deleite.

Desde então, passei a observá-lo com admiração ainda maior.

Costumo dizer que João Rodella é o Machado de Assis de Americana.

Não porque os tempos se parecem ou os estilos se assemelham, mas porque

ambos possuem o dom de revelar as engrenagens invisíveis da sociedade.

Enquanto muitos olham os fatos, eles observam as motivações. Enquanto

muitos descrevem acontecimentos, eles interpretam a alma humana.

A importância de João Rodella para os leitores vai muito além da

qualidade literária de seus textos. Sua obra nos ensina a pensar. Em uma

época marcada pela velocidade e pela superficialidade, ele nos convida a

parar, observar e questionar. Sua escrita é uma resistência silenciosa contra

a indiferença.

Para o país, autores como ele são indispensáveis. São vozes que

preservam a memória, estimulam a consciência crítica e recordam que a

literatura não serve apenas para entreter, mas também para iluminar os

cantos escuros da realidade.

Ao final daquele encontro, percebi que alguns sonhos não terminam

quando se realizam. Eles apenas se transformam.

O sonho de conhecer João Rodella tornou-se o privilégio de ouvi-lo,

aprender com ele e testemunhar a força de uma trajetória construída com

inteligência, coragem e compromisso com a verdade.

E, enquanto existirem leitores dispostos a refletir, suas palavras

continuarão cumprindo sua missão: provocar, inspirar e permanecer.

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